Os discursos de posse de Jair Bolsonaro, principalmente o voltado para o público no parlatório do Palácio do Planalto, mantiveram o tom da campanha, de ênfase na batalha ideológica que tanto prometeu travar quando chegasse ao poder. Diante da multidão de apoiadores, é compreensível que Bolsonaro tenha apelado para a popularidade do tema entre o seu eleitorado e ressaltado que, agora presidente, vai “libertar o povo do socialismo e do politicamente correto”.
A sensação é de que o Bolsonaro candidato ainda precisa virar a chave para o Bolsonaro presidente. Justamente por já ostentar a faixa presidencial, poderia ter ido além, no sentido da conciliação nacional e dos caminhos que pretende seguir para resolver os problemas mais urgentes do país.
Mais cedo, no Congresso, teve mais êxito em deixar para trás o candidato e se portar como um governante, não só por ressaltar seu compromisso de “construir uma sociedade sem discriminação ou divisão”, mas também por traçar diretrizes que de fato interessam à nação como um todo, com resultados capazes de proporcionar a retomada do crescimento e garantir mais qualidade de vida e justiça social.
Ao assegurar que “o governo não gastará mais do que arrecada”, como expôs às autoridades presentes, esboçou a preocupação com o equilíbrio fiscal. Também fez menção às reformas estruturantes, que apontam para esse cuidado com a saúde financeira do país. Citou a necessidade de menos burocracia, mais produtividade e descentralização do poder. Passeou por demandas que são inegavelmente de interesse comum: educação de qualidade, saúde para todos e segurança. Para arrematar, reafirmou o compromisso com a democracia.
Uma longa jornada aguarda Bolsonaro, que terá de buscar consensos e convencimentos para atingir aquilo que é considerado o bem comum. Para isso, alguns sacrifícios serão exigidos da sociedade. E, como ninguém governa sozinho numa democracia, o diálogo deverá se fazer presente, com espaço para críticas.
O tratamento dado à imprensa na cerimônia de posse, com limitações à circulação de jornalistas, confinamento e acesso restrito à água e aos banheiros, provocou um mal-estar que poderia ter sido evitado. A liberdade de imprensa não é mera benevolência; é muito mais, é o oxigênio que garante o vigor democrático. O Bolsonaro presidente, diferentemente do candidato, ainda tem tempo para corrigir deslizes assim.