A tragédia social do feminicídio segue sem dar trégua, em mais um roteiro de violência que impressiona: um homem, identificado como Carlos Roberto Lickteneld, mata a mulher, Fabrícia Hell Lickteneld, com um tiro na cabeça, atira na sogra e na própria cabeça após enviar uma mensagem à filha de 15 anos informando que havia matado a esposa. Para deixar ainda mais dramático, o filho de 5 anos estava na residência em que o crime aconteceu, em Itaguaçu, Noroeste do Espírito Santo.
Não dá para normalizar, banalizar, ignorar, virar o rosto para o lado quando mais uma mulher perde a vida por uma violência que nasce dentro de casa, por qualquer motivo que seja. Os casos se repetem, no Espírito Santo e no Brasil, são noticiados em uma frequência quase diária e geram uma comoção que não tem sido suficiente para dar um basta.
O painel do Observatório da Segurança Pública mostra que, de 1º de janeiro a 23 de setembro deste ano, ocorreram no Espírito Santo 29 crimes classificados como feminícido. Em todo o ano de 2025, foram 35 casos.
A responsabilidade dos candidatos nestas eleições é imensa: quem chegar ao governo do Estado deve encabeçar o enfrentamento dessa chaga social com políticas públicas sólidas, com redes consistentes de apoio às vítimas de violência doméstica e, sobretudo, com foco na educação e na consicientização contra o machismo e a misoginia, as raízes desse mal. É preciso envolver família, escola e instituições nessa luta.
E os aspirantes aos cargos no Legislativo, caso se elejam, terão nas mãos os possíveis ajustes na lei para tentar frear os casos. E é sempre bom ter em mente que punição rigorosa é necessária, mas não tem conseguido sozinha se impor contra os casos que não param de acontecer.
Deputados e senadores, governadores e presidente precisam selar um pacto, envolvendo toda a sociedade, para começar a mudar esse cenário. Mesmo que seja um crime de difícil enfrentamento, é possível estar um passo à frente, a Lei Maria da Penha de certa forma é um radar, se bem aplicada. O poder público precisa e pode fazer mais para proteger as mulheres.
A vítima de Itaguaçu é o rosto mais recente dessa tragédia em que páginas são viradas com uma rapidez que beira a insensibilidade. Cada vítima acaba sendo substituída pela próxima... a sociedade não pode correr o risco de se acostumar com a barbárie. A página a ser virada é a da recorrência desses crimes.