Eles nem sempre chegam acompanhados de uma grande briga ou de uma crise evidente, muitas vezes, começam silenciosamente. Imagine a cena “duas pessoas dividindo a mesma cama, mas cada uma mergulhada em uma tela.” O que está acontecendo ali?
Podemos ter várias possibilidades do que cada um está fazendo, conversas, vídeos, jogos, notícias, mas quero salientar que enquanto cada um está olhando para o próprio celular, a conversa, o toque e a intimidade vão desaparecendo. Existe alguém ao lado, mas falta presença.
E quando esse movimento se torna parte da rotina dos relacionamentos? A mesma cena na mesa durante o jantar, no café da manhã e muitas vezes, até durante uma conversa. E quando a pessoa ignora ou interrompe a interação com o parceiro para dar atenção ao celular ou a outro dispositivo? Esses são sintomas de um processo vicioso.
“A gente costuma resumir vício a uma coisa só: substância. Álcool, cigarro, uma droga. Como se o vício coubesse só nisso. Mas existe o vício silencioso — aquele em que um comportamento vai tomando o tempo e o espaço emocional que seriam do casal”, explica a médica da saúde mental, Dra. Amine Selim de Salles.
Segundo ela, o problema não está apenas no comportamento em si, mas na função que ele passa a exercer dentro da relação.
Em alguns relacionamentos, o movimento de uso de tela não é necessariamente a causa do afastamento. Ele começa como uma estratégia de fuga. Fugir de uma conversa difícil, do tédio, da frustração sexual, da ansiedade, da própria intimidade.
A literatura científica sobre uso problemático de telas mostra associação com diferentes dificuldades psicológicas, embora boa parte das pesquisas seja correlacional e não permita estabelecer uma relação simples de causa e efeito. (PubMed)
O sexo também pode assumir uma função diferente dentro de um relacionamento e virar processo vicioso.
Sexo pode ser prazer, intimidade, comunicação, desejo e conexão. Mas também pode ser utilizado como uma forma de aliviar ansiedade, buscar validação, evitar sentimentos desagradáveis ou regular emoções. E aí é importante não confundir alta frequência sexual com compulsão sexual. A OMS (Organização Mundial da Saúde) inclui o transtorno do comportamento sexual compulsivo na CID-11 entre os transtornos do controle de impulsos.
O sinal de alerta está mais relacionado à perda persistente de controle, à dificuldade de interromper o comportamento e aos prejuízos que ele provoca na vida pessoal, afetiva ou profissional.
Dentro do relacionamento, o problema pode aparecer de várias formas: conflitos relacionados à frequência sexual, a busca constante de sexo como regulador emocional, para relaxar, descansar, dificuldade de respeitar os limites do parceiro(a) ou uma sensação de que o sexo passou a ocupar todo o espaço da relação.
A pornografia por si só, não significa que exista um transtorno. É o excesso dela que traz o prejuízo no relacionamento. Há pessoas que consomem pornografia sem prejuízo significativo e, inclusive, estudos mostram que o uso compartilhado por alguns casais pode estar relacionado a maior variedade sexual e comunicação sobre sexualidade. (PubMed)
O problema aparece quando o consumo se torna problemático: quando existe perda de controle, sofrimento, prejuízo na vida sexual ou afetiva, ou quando a pornografia começa a funcionar como substituta recorrente da intimidade com o parceiro e juntamente com esses costuma vir os segredos, por vergonha, medo do julgamento e isso passa a produzir afastamento, mentira, desconfiança ou quebra de acordos do casal, o problema deixa de ser apenas o comportamento sexual e passa a envolver a relação.
Um estudo longitudinal com 217 casais investigou o uso solitário de pornografia e descobriu que, nos dias em que esse uso não era conhecido pelo parceiro, havia associação com menor satisfação e intimidade naquele mesmo dia, além de menor nível inicial de satisfação no relacionamento.
“No consultório, o que se vê é que os sinais passam despercebidos porque vêm devagar. A conversa vira tela, o segredo vira mentira, a insatisfação cresce, as brigas se repetem.”
Dra. Amine destaca que, muitas vezes, esses comportamentos caminham ao lado de outros sofrimentos emocionais.
“Por trás disso, existe quebra de confiança e, quase sempre, ansiedade ou depressão.”
Existe uma pergunta que pode ajudar a identificar o problema:
-Esse comportamento está acrescentando algo à nossa relação ou está substituindo alguma coisa que está faltando?
Se o celular substitui a conversa, a pornografia substitui a troca sexual, o sexo substitui a comunicação emocional ou qualquer comportamento passa a ser utilizado como única maneira de aliviar sentimentos, talvez o problema não esteja apenas no comportamento.
* O casal passa mais tempo conectado às telas do que conversando;
* Um dos parceiros sente que precisa disputar atenção com o celular;
* Pornografia ou sexo começam a gerar conflitos frequentes;
* Existe necessidade crescente de determinado comportamento para obter alívio;
* A pessoa tenta reduzir ou interromper e não consegue;
* O comportamento interfere no trabalho, no sono ou na vida sexual;
* Existe mentira ou ocultação recorrente;
* A intimidade do casal diminui enquanto o comportamento aumenta;
* Um dos parceiros se sente emocionalmente ou sexualmente substituído.
Nenhum desses sinais, isoladamente, permite fazer um diagnóstico. Eles indicam que pode ser necessário olhar com mais cuidado para a dinâmica do casal e procurar ajuda profissional.
Porque o verdadeiro problema pode começar quando duas pessoas continuam compartilhando uma casa, uma cama e uma rotina, mas deixam de compartilhar presença.
E talvez seja justamente aí que a terapia de casal possa ajudar: não apenas a interromper um comportamento, mas a descobrir qual necessidade, conflito ou vazio ele estava tentando preencher.
Colunista
Sirleide Stinguel é colunista de HZ. As opiniões, análises e recomendações expressas em seus textos são de sua exclusiva responsabilidade e não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial de HZ ou da Rede Gazeta.