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Vitor Vogas

As estratégias de Ricardo, Pazolini e Helder na estreia no rádio e na TV

Governador e ex-prefeito pintaram cenários opostos ao falar do Espírito Santo. Um desavisado pensaria se tratar de dois estados diferentes. Helder em campanha casada com Lula, enquanto Casagrande coprotagoniza o programa de Ricardo

Publicado em 28 de Agosto de 2026 às 17:33

Públicado em 

28 ago 2026 às 17:33
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Pazolini, Ricardo e Helder
Lorenzo Pazolini, Ricardo Ferraço e Helder Salomão em campanha Fotomontagem (Reprodução do Facebook)

De acordo com a mais recente pesquisa da Quaest para a Rede Gazeta, o governador Ricardo Ferraço (MDB) lidera a corrida para o Palácio Anchieta, com 35% das intenções estimuladas de voto. O ex-prefeito Lorenzo Pazolini (Rep) está em segundo, com 28%. Nesta sexta-feira (28), na estreia dos candidatos na propaganda de rádio e TV, os dois pintaram cenários diametralmente opostos ao falar do Espírito Santo. Um desavisado pensaria se tratar de dois estados diferentes.


Ricardo apresentou um Espírito Santo que nos últimos anos acumulou conquistas no campo econômico e no social; um estado “respeitado e admirado no Brasil inteiro”, onde “o futuro já começou” e “se mostra todos os dias”. Pazolini, por sua vez, exibiu um Espírito Santo desigual, onde “o resultado não chega para todos”; um estado com problemas em áreas sociais, onde não é possível “pensar no futuro”, já que “falta tranquilidade no presente”.


A julgar pela campanha de Ricardo, temos um estado sem problemas; a se fiar na de Pazolini, problemas são tudo o que existe.


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Enquanto isso, em terceiro lugar na última Quaest (10%), Helder Salomão (PT) concentrou-se em se apresentar, contando sua história de vida e destacando as origens humildes. Na primeira oportunidade, exibiu no rádio e na TV a fala de Lula, ao seu lado, com o presidente lhe declarando apoio e pedindo votos para ele. Reforçou, assim, a estratégia de associação total com a imagem e a campanha do líder maior do PT.


Falando em associação, Casagrande foi coprotagonista da première de Ricardo no horário eleitoral. No programa de rádio, o ex-governador falou antes do próprio Ricardo, que só entrou mais perto do fim para dizer seu texto com Casagrande. Na TV, os dois se alternaram na tela, em várias locações pelo Estado, em diálogo sobre as realizações do governo Casagrande, herdado por Ricardo. Mostraram perfeita sintonia.


Assim, confirmou-se de cara que a estratégia será mesmo a de investir numa campanha casada, visando à transferência de capital político de um para o outro. Uma campanha na qual Casagrande se apresentará como maior cabo eleitoral de Ricardo e o apresentará como seu sucessor, seu candidato, seu parceiro e guardião do seu legado.


A seguir, considerações mais detidas sobre cada um dos três.

RICARDO FERRAÇO

Os programas de rádio e TV de Ricardo seguiram a mesma base, mas diferiram no formato. O de rádio foi bem mais informal, com boa parte do tempo ocupada por um jingle sertanejo, sempre visando sublinhar o vínculo entre ele e seu antecessor: “Casagrande deixa uma história guardada no coração / E agora passa adiante mais que uma missão / Ricardo leva com você o mesmo carinho, a mesma paixão / O mesmo carinho, o mesmo coração”.


O nome da coligação de Ricardo é “Agora é o Futuro” (curiosamente, inversão de um verso do refrão do jingle de Paulo Hartung em 2014: “O futuro é agora”). Tanto no rádio como na TV, locutores iniciam o programa com reflexões em torno da ideia de “futuro”, lançando mão de conceitos como “sonhos” e “esperança”.  “O que é o futuro?”, filosofam.


Em seguida, dizem que “o amanhã vai ser ainda melhor”, pois, no Espírito Santo, “o futuro já começou” e “já se mostra todos os dias”. “Nos últimos anos, o governo Casagrande fez o Espírito Santo ficar mais forte, desenvolvido, respeitado e admirado no Brasil inteiro.”


O texto destaca “a melhoria nos índices de segurança, os investimentos em educação, os avanços na saúde, as novas rodovias, a atração de investimentos e a geração de milhares de novos empregos”.


“E Ricardo, que participou de toda essa transformação, recebe esse legado com o compromisso de avançar ainda mais”, diz a locutora, salientando “o grande trabalho que eles fizeram juntos”.


No rádio, entra Casagrande (antes de Ricardo), dando ênfase justamente a essa ideia de passagem de bastão e apresentando o aliado como seu parceiro de governo, corresponsável pelos feitos e sucessor no cargo. O ex-governador fala no “maior salto de desenvolvimento da nossa história”, enchendo a bola de Ricardo e levantando-a para ele:  


“E olha, Ricardo, a sua participação foi fundamental. Estivemos lado a lado em todos os momentos dessa caminhada. Eu sei da sua competência. Conheço a sua capacidade. Por isso, tenho a certeza de que, com você, o Espírito Santo vai continuar crescendo e cuidando cada vez melhor dos capixabas”.


Casagrande, assim, confere a Ricardo, para o público, um “atestado de capacidade”, como um avalista da candidatura do aliado.


Então chega Ricardo para a conversa, de um jeito bem familiar, chamando o aliado pelo primeiro nome:


“Pois é, Renato! Eu tive a honra de trabalhar do seu lado. Fizemos muito juntos, é verdade. E me dá alegria ver que nós transformamos o Espírito Santo, e transformamos para muito melhor. Mas a gente ainda pode e precisa fazer muito mais”.


Ricardo, então, completa, finalizando a “passagem do bastão”: “Assumo essa missão com a certeza de que, nos próximos quatro anos, nós vamos ainda mais longe. [...] E os capixabas já sabem: podem confiar!”


Já no programa inaugural de TV, a divisão do protagonismo fica ainda mais forte, já que os dois se revezam na tela, em um “diálogo remoto”. Nas imagens intercaladas, cada um aparece seis vezes. Ao fundo, cenários que simbolizam realizações do último governo de Casagrande, tendo Ricardo como vice: um dos totens de segurança numa via pública, o Hospital Geral de Cariacica (obra iniciada por Casagrande e ainda em progresso). E por aí vai...


Casagrande destaca que eles colocaram a educação do Espírito Santo entre as três melhores do país. Ricardo completa que “isso só foi possível porque nós [sempre “nós”] botamos de pé uma política de valorização dos nossos professores e reestruturamos toda a nossa rede física”. Essa é a dinâmica. Sempre um levantando para o outro.


Ricardo diz a última parte bem em frente ao Palácio Anchieta. E assina com o slogan: “Agora é o futuro”.

LORENZO PAZOLINI

Pazolini “dispensou apresentações”. Não perdeu um segundo dizendo quem é, de onde vem etc. Tanto no rádio como na TV, com textos muito parecidos, a propaganda do ex-prefeito de Vitória partiu direto para as críticas.


O locutor abre falando em um “novo tempo de mãos limpas”, slogan que resume duas ideias fulcrais da campanha de Pazolini: discurso de renovação no poder e de honestidade pessoal.


Em seguida, passa-se a apresentar um estado com desigualdade social: “Um estado só está realmente bem quando o resultado chega para todos. E será que está chegando?”, questiona o locutor, retoricamente, para responder com alguns índices.


Citam-se problemas na saúde (“fila de espera para milhares de famílias”), na segurança (“o Espírito Santo está em 23º lugar entre os 27 estados”, no ranking de competitividade da CDL*), na educação (“só dez em cada cem alunos alcançam aprendizado adequado em português e matemática”, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, elaborado pelo Todos pela Educação com base em dados do MEC/Saeb) e no desenvolvimento social (“19,2% dos capixabas abaixo da linha da pobreza” e “13,5% dos lares enfrentando insegurança alimentar”; fonte não especificada).


“Como pensar no futuro quando falta tranquilidade no presente?”, conclui o locutor. É nítida a contraposição à campanha de Ricardo, cujo mote, como vimos, é “o futuro no presente”.

Então entra Pazolini no ar e em cena, dizendo um texto que também visa enfatizar seu trabalho como prefeito de Vitória, o qual ele pretende expandir para o resto do Estado.


“Desenvolvimento de verdade é aquele que chega à casa das pessoas”, diz ele, no rádio.


“Eu sei que dá para fazer. Em Vitória, com gestão, responsabilidade, respeito ao dinheiro público, honestidade e planejamento, mudamos muitas realidades. Agora, estamos colocando nossa experiência à disposição do Espírito Santo. Com humildade, fé, trabalho e mãos limpas, chegaremos a quem está abandonado há muito tempo.”


Na TV, ele enuncia esse texto vestindo branco (paz), enquanto caminha por dois cartões postais de Vitória que remetem à sua administração no município: a nova orla da Ilha das Caieiras e a primeira parte do novo calçadão suspenso no Canal de Camburi.


Parte do texto de Pazolini também foi gravado em Colatina, onde ele buscou aliança com o prefeito Renzo Vasconcelos (PSD).


O programa ainda exibe líderes comunitários de Vitória elogiando o ex-prefeito.


A edição é bem dinâmica, com cortes muito rápidos, imagens feitas por drones e uma sucessão frenética de imagens na tela. A produção é da mesma agência que fez as duas campanhas de Pazolini para prefeito. A estética é a mesma, facilmente reconhecível.


A assinatura do programa é o slogan: “É tempo de paz”.

HELDER SALOMÃO

Com o mesmo texto no rádio e na TV, Helder começa contando, resumidamente, a sua história pessoal. Com direito a uma simulação de imagens de época na peça produzida para a TV, o candidato do PT frisa a origem muito simples, no interior de Colatina, e sua chegada a Cariacica, aos 10 anos, para estudar e viver na casa de um tio que tinha uma mercearia no bairro Bela Aurora.


O texto de Helder o aproxima de todos os “capixabas comuns”: “Minha história é parecida com a história de tantos capixabas que desde cedo trabalharam por uma vida melhor. [...] Eu sou professor, fui prefeito de Cariacica, três vezes deputado federal. Mas, antes de qualquer coisa, sou filho do seu Demétrio e da Dona Nadir”. Ele ressalta os ensinamentos dos pais, como o valor da fé, da humildade e da simplicidade.


Mas o destaque maior do programa, nos dois veículos, é a proximidade do candidato com Lula, cujo “time” é liderado por ele nesta campanha no Estado.


“Eu sou Helder Salomão, candidato a governador do Lula no Espírito Santo.” Assim se apresenta o deputado.


Logo a seguir, o próprio Lula é quem surge nas ondas do rádio e da TV, ao lado de Helder, com seu já característico chapéu na cabeça:


“Tenho muito orgulho de tudo o que estamos fazendo no Espírito Santo. E estamos prontos para mais. Por isso, quero pedir o seu voto para meu amigo, companheiro Helder Salomão, meu candidato a governador do Espírito Santo, para que ele possa construir uma nova história”.


Helder responde com um agradecimento, enquanto os dois dão um aperto de mãos:


“Presidente, muito obrigado! Nós estamos juntos pelo Brasil e pelo Espírito Santo!”

* BATALHA DOS NÚMEROS

E começou a batalha dos números entre as campanhas.


O número apresentado pelo programa de Pazolini refere-se ao Ranking de Competitividade dos estados elaborado anualmente pela Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL). O número informado, porém, refere-se ao relatório de 2025 (ano-base 2024), no qual o Espírito Santo de fato figurou na 23ª posição no quesito Segurança Pública. No mais recente, divulgado este ano (ano-base 2025), o Estado subiu quatro posições, figurando em 19º lugar.


O Ranking de Competitividade engloba dez categorias, além de um ranking geral, que é a média de todas elas. No geral, na edição de 2025, o Espírito Santo ficou em 7º lugar entre as 27 unidades da federação. Em 2026, subiu para o 5º lugar.


Em oito das dez categorias, o Espírito Santo está entre os 10 melhores colocados. Em Solidez Fiscal, é o primeiro lugar. Em duas, está mal ranqueado: 20º lugar em Potencial de Mercado e 19º precisamente em Segurança Pública.

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Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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