Projetos desenvolvidos para responder a problemas ambientais locais podem ganhar alcance quando suas soluções são compartilhadas com outras comunidades. A avaliação é do engenheiro agrônomo, sanitário e ambiental Henrique Lobo, que vê na circulação dessas experiências uma forma de ampliar boas práticas no Espírito Santo.
Doutor em Hidrogeologia, membro do Comitê do Rio Doce e do Conselho do Instituto Terra, Henrique acompanha há décadas questões ambientais no estado. Ele também participou dos lançamentos das edições de 2022 e 2023 do Prêmio Biguá de Sustentabilidade, projeto da Rede Gazeta.
Na avaliação do especialista, o Espírito Santo avançou em algumas frentes da sustentabilidade, mas ainda convive com desafios importantes. Um deles é a disponibilidade de água, questão que, segundo Henrique, também está relacionada às características geológicas do território capixaba.
“As rochas que temos no estado do Espírito Santo são, em sua maioria, de formação gnaisse. São rochas pouco porosas. Por isso, nas camadas mais profundas, não temos água, a não ser em fraturas de rochas”, explica Henrique.
Diante desse cenário, ele aponta a retenção da água da chuva e a conservação do solo entre as alternativas que podem contribuir para melhorar a disponibilidade hídrica.
Um exemplo citado pelo engenheiro é o Programa Municipal de Conservação de Água e Solo, desenvolvido pela Prefeitura de Linhares e vencedor do primeiro lugar na categoria Poder Público do Prêmio Biguá em 2021.
O projeto reúne ações como construção de barragens, abertura de estruturas para captação da água da chuva, recuperação ambiental de fontes hídricas e realização de reuniões técnicas com agricultores do município.
Para Henrique, experiências como essa mostram como soluções desenvolvidas em escala local podem servir de referência para outros territórios. É nesse processo de divulgação e troca de conhecimento que ele identifica uma das contribuições do Prêmio Biguá.
Ao reconhecer iniciativas socioambientais, a premiação, segundo o engenheiro, ajuda a colocar em circulação experiências que podem inspirar novos projetos em municípios, comunidades, instituições e propriedades rurais.
A defesa do compartilhamento de conhecimento também está relacionada à trajetória profissional de Henrique. Há 46 anos dedicado a estudos sobre o Rio Doce, ele acompanha as transformações da bacia e utiliza o rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em 2015, para destacar a diferença entre o tempo do impacto e o tempo da recuperação ambiental.
Segundo o engenheiro, enquanto uma intervenção humana pode provocar danos em pouco tempo, os processos naturais de recomposição tendem a ocorrer de forma mais lenta.
Quase onze anos após o desastre, Henrique afirma observar, em determinados trechos da bacia, sinais que considera positivos.
Entre os registros mencionados por ele estão peixes, crustáceos e moluscos encontrados em diferentes pontos do sistema hidrográfico.
“Já encontramos também o pitu de água doce na região de Aimorés, no Rio Manhuaçu, e muitas conchas bivalves, que são moluscos filtradores e vivem no leito do rio”, relata.
As observações são apresentadas pelo engenheiro como parte de sua leitura sobre as mudanças ocorridas na bacia ao longo dos últimos anos.
Ao recordar o início de suas pesquisas, ainda na década de 1980, Henrique também destaca o avanço do conhecimento sobre o meio ambiente e a importância de compreender as relações entre água, solo, vegetação, fauna e atividades humanas.
“Esta nossa geração é a geração do conhecimento, porque estamos vivenciando mais entendimentos do que antes tínhamos. Fico encantado com como estamos aprendendo e, a cada dia mais, fico maravilhado em poder ajudar a trazer entendimento à nossa geração e olhar para a nossa Terra, onde tudo está interligado.”
Para Henrique, tornar esse conhecimento acessível é parte da construção de uma relação mais consciente com o meio ambiente. Também é uma forma de permitir que experiências desenvolvidas em um território sejam conhecidas e, quando aplicáveis, adaptadas a outras realidades.
Essa lógica, segundo ele, ajuda a explicar a importância de iniciativas que reconhecem e dão visibilidade a projetos socioambientais.
A edição de 2026 do Prêmio Biguá de Sustentabilidade está com inscrições abertas desde 30 de julho.
Neste ano, a campanha tem como tema “Todos 100% Presentes” e propõe ampliar a participação coletiva em iniciativas voltadas à sustentabilidade e à geração de impactos socioambientais positivos.
O prêmio contempla projetos em cinco categorias: produtores rurais, poder público, instituições de ensino, empresas e sociedade civil.
As iniciativas inscritas devem apresentar resultados ou propostas relacionados à sustentabilidade e ter potencial para inspirar outras comunidades ou instituições.
As inscrições seguem abertas até 6 de setembro. Clique aqui e participe!