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Caneta emagrecedora

Ozivy: versão brasileira do Ozempic começa a ser vendida; veja preço

Medicamento brasileiro aprovado pela Anvisa já está disponível no país; endocrinologista explica impacto da nova tecnologia de produção e os possíveis efeitos no acesso aos tratamentos metabólicos

Publicado em 17 de Junho de 2026 às 15:54

Por Redação

Publicado em 

17 jun 2026 às 15:54
Idosos usando canetas emagrecedoras
O produto é a primeira versão nacional da molécula aprovada pela Anvisa Shutterstock

A chegada do Ozivy às farmácias brasileiras marca um novo momento no mercado de medicamentos à base de semaglutida. Desenvolvido pela EMS, o produto é a primeira versão nacional da molécula aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) após a queda da patente da substância, ampliando a oferta de uma das terapias mais utilizadas atualmente no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade.


O medicamento começou a ser comercializado neste mês com preço inicial de R$452 por caneta nas farmácias para as doses iniciais, de 0,25 mg e 0,5 mg, e de R$ 497 para a de 1 mg. Ainda, de acordo com a farmacêutica, a apresentação com duas canetas para manutenção na dose de 1 mg será disponibilizada a partir de julho.


No Programa Vida + Leve, oferecido pela EMS, é apresentado um pacote com duas canetas multidose de 1 mg que corresponde aos três primeiros meses de tratamento, por R$ 863,23, equivalente a R$ 287 por mês. Neste primeiro ciclo de abastecimento, a EMS informou que disponibilizará mais de 500 mil canetas distribuídas em farmácias de todo o país.


A semaglutida pertence à classe dos agonistas do receptor de GLP-1, medicamentos que reproduzem a ação de um hormônio produzido naturalmente pelo intestino após as refeições. Esse mecanismo estimula a liberação de insulina, reduz a produção de glicose pelo fígado e retarda o esvaziamento do estômago, contribuindo para o controle da glicemia e da saciedade.


Para a endocrinologista Alessandra Rascovski, da Atma Soma, a chegada de uma nova opção produzida no Brasil representa um avanço para a medicina metabólica.


“Não estamos falando apenas da chegada de mais uma caneta, mas da entrada de uma nova modalidade tecnológica para produção de moléculas complexas como a semaglutida. A obesidade e o diabetes são doenças crônicas altamente prevalentes e que geram enorme impacto na saúde pública. Quanto maior a capacidade de produção e acesso a essas terapias, maior o potencial benefício populacional”, afirma.


O diferencial do Ozivy está na forma de fabricação. Enquanto as primeiras semaglutidas disponíveis no mercado foram produzidas por processos biotecnológicos que utilizam organismos vivos geneticamente modificados, a nova versão utiliza síntese química para construir a molécula.


Segundo a especialista, o avanço das tecnologias de síntese peptídica permitiu tornar esse processo uma alternativa viável para a fabricação de medicamentos complexos. “As semaglutidas originais foram desenvolvidas por tecnologia biológica, utilizando organismos vivos geneticamente modificados para produzir o peptídeo. Já o Ozivy utiliza síntese química, um processo em que os aminoácidos são montados sequencialmente até formar a molécula final da semaglutida. A grande evolução dos últimos anos foi justamente o avanço das tecnologias de síntese peptídica, que passaram a permitir a fabricação de moléculas complexas com elevado grau de pureza e estabilidade”, explica.


A chegada de uma semaglutida produzida por uma rota diferente também levantou questionamentos sobre possíveis diferenças em relação aos medicamentos já disponíveis no mercado. Para Alessandra, o aspecto central da discussão não está na origem da molécula.


“Do ponto de vista clínico, o objetivo é que não exista diferença relevante. O que importa não é apenas a origem da produção, mas a qualidade da molécula final. Para ser aprovado, o medicamento precisa demonstrar requisitos rigorosos de eficácia, segurança, estabilidade e qualidade farmacêutica”, ressalta.


A endocrinologista destaca ainda que a literatura científica já demonstrou que diferentes métodos de fabricação podem gerar variações na qualidade dos produtos, o que reforça a importância dos processos regulatórios.


“Um ponto importante é que a literatura científica já demonstrou que diferentes processos de fabricação podem gerar diferenças em impurezas, produtos de degradação e estabilidade molecular. Por isso, a discussão científica mais relevante não é ‘sintético versus biológico’, mas sim a robustez do processo produtivo, do controle de qualidade e da farmacovigilância”, afirma Alessandra.


Nesse contexto, a aprovação concedida pela Anvisa funciona como um parâmetro de segurança para médicos e pacientes. “A própria Anvisa destacou que o produto passou por avaliação técnica de eficácia, segurança e qualidade antes da aprovação. Isso significa que o medicamento precisou cumprir critérios regulatórios para demonstrar sua adequação ao uso clínico. A aprovação não elimina a necessidade de monitoramento pós-comercialização, mas mostra que o produto atendeu aos requisitos exigidos pela agência reguladora”, diz Rascovski.


Entre os potenciais impactos da novidade, especialistas apontam a possibilidade de ampliar o acesso a tratamentos com semaglutida. A demanda global por medicamentos da classe GLP-1 aumentou nos últimos anos, cenário que contribuiu para períodos de escassez em alguns mercados e para o crescimento da procura por alternativas sem registro sanitário.


“Esse talvez seja o aspecto mais relevante. A síntese química pode facilitar a escalabilidade industrial, aumentar a concorrência entre fabricantes e reduzir a dependência de plataformas biotecnológicas complexas. Em teoria, isso pode favorecer maior disponibilidade do medicamento, menor risco de desabastecimento e potencial impacto nos custos ao longo do tempo”, avalia a médica.

Ampliação de oferta

A médica acrescenta que a ampliação da oferta de produtos regularizados pode contribuir para reduzir o mercado irregular. “Hoje existe uma demanda enorme por medicamentos à base de semaglutida, o que acabou favorecendo importações paralelas, produtos manipulados sem respaldo científico adequado e até falsificações. Quanto maior a disponibilidade de produtos regularizados e fiscalizados, menor tende a ser o espaço para o mercado irregular”, observa.


Em relação ao perfil de segurança, os efeitos adversos esperados permanecem alinhados aos observados com outros agonistas de GLP-1. Entre eles estão náuseas, vômitos, constipação, diarreia, refluxo e desconforto gastrointestinal, especialmente durante o início do tratamento e o período de escalonamento das doses.


As contraindicações seguem as recomendações já estabelecidas para a classe terapêutica, incluindo pacientes com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide, síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2) ou hipersensibilidade aos componentes da fórmula.


Com a chegada do medicamento às farmácias, o mercado brasileiro passa a contar com novas opções de produção e comercialização da semaglutida. Para Alessandra, o avanço deve ser analisado dentro de um cenário mais amplo de transformação no tratamento das doenças metabólicas.


“O mais interessante talvez não seja apenas o lançamento de uma nova caneta. Estamos assistindo à expansão de uma plataforma terapêutica que vem transformando o tratamento da obesidade, do diabetes e possivelmente de outras doenças metabólicas. Se a evolução tecnológica vier acompanhada de qualidade, segurança e ampliação do acesso, podemos estar diante de um dos movimentos mais relevantes da medicina metabólica nas próximas décadas”, conclui.

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