A Prefeitura de Vitória e a Defensoria Pública do Espírito Santo (DPES) assinaram nesta semana um acordo para levar o programa "Defensoria Delas nas Escolas" para a unidades da rede municipal. Estudantes do ensino fundamental vão participar de oficinas, jogos e rodas de conversa de conscientização sobre machismo, violência doméstica e violência contra a mulher.
De acordo com a defensora pública Fernanda Prugner, a estratégia de ensino é fugir das palestras tradicionais. As atividades são pensadas como uma conversa, e não como aulas expositivas. "Nós utilizamos dinâmicas participativas, com linguagem acessível e exemplos do dia a dia deles para aproximá-los de temas como relacionamentos abusivos, equidade de gênero e identificação de violências", explica.
O programa nasceu em 2024, com um projeto-piloto em Terra Vermelha, Vila Velha. Já estruturada, a iniciativa, desde março de 2025, atua com parcerias consolidadas e se expande para vários municípios.
A Defensoria Pública confirma que já foram atendidas 31 escolas, em mais de 18 municípios capixabas – o que totaliza 9 mil estudantes. As turmas mais recentes ainda não foram contabilizadas e, com a entrada da Prefeitura de Vitória ao projeto, a lista de espera para participação cresceu.
Quem detalhou os planos de expansão foi o subsecretário municipal de Educação, Trajano Ferreira. Segundo ele, a meta é levar o programa a todas as unidades da rede municipal do 6º ao 9º ano – cerca de 50 escolas, além de turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA). O acordo foi fechado no Agosto Lilás, mês de combate à violência contra a mulher.
Um dos achados da experiência em sala de aula é que boa parte dos estudantes só reconhece determinados comportamentos como violência depois das atividades. "Em muitos casos, eles só percebem que aquilo é violência depois que a gente passa por ali. Às vezes é tão naturalizado, de forma tão sutil, que eles mesmos falam: 'Eu não sabia que isso era violência'", relata Fernanda.
Em 100% das escolas por onde a gente passou, houve relato de violência. Não necessariamente ali, na escola, mas um relato de algo que já aconteceu em casa, com uma amiga, ou com a própria pessoa que estava ali
Fernanda Prugner, defensora pública
Lidar com um tema sensível dentro da sala de aula exige cuidado. Para o subsecretário Trajano Ferreira, é exatamente a idade dos estudantes que torna esse trabalho mais urgente. "É desde pequeno que a educação traz os movimentos mais importantes para a sociedade. O grande passo que a gente dá com as crianças e adolescentes é que são eles que vão frear novos tipos de violência lá na frente. A gente já trabalha nas escolas com a convivência pacífica entre eles, ressignificando esses debates", afirma.
Na rede municipal da capital, a recepção tem sido positiva. Trajano afirma que a discussão se conecta a outros problemas vistos nas escolas, como bullying e cyberbullying. "Quanto mais coibirmos esse tipo de violência, melhor para toda a sociedade."
Fernanda Prugner acrescenta que os materiais são todos pensados para a idade daquele público. "A gente sempre incentiva a participação deles; os próprios exemplos são dados pelos alunos. Usamos até música para identificar essas violências, esses comportamentos abusivos. Nunca tivemos problema com a questão de gatilhos. Temos cuidado de usar a linguagem e as ferramentas do cotidiano deles: redes sociais, jogos, quizzes", disse a defensora.
Segundo consulta ao Mapa da Paz, painel público mantido pela Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp), nesta sexta-feira (21), Vitória alcança 150 dias sem registrar casos de feminicídio. Essa sequência havia ultrapassado a marca de 650 dias consecutivos sem ocorrências até março deste ano, quando a comandante da Guarda de Vitória, Dayse Barbosa, foi assassinada.
O dado foi lembrado pela prefeita Cris Samorini na assinatura do acordo de parceria, ao lado da secretária de Educação, Juliana Rohsner, do defensor público-geral Vinícius Chaves de Araújo, e de representantes da Emef Edna de Mattos Siqueira Gaudio, uma das primeiras unidades em Vitória a receber o projeto.
"Vitória se destaca pelo combate à violência contra a mulher. Essa é uma luta que seguiremos na batalha", disse a prefeita.
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