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Você reconheceria?

Entenda sinal de socorro que ajudou a salvar vítima de violência doméstica no PR

Sinal universal de socorro foi criado no Canadá como forma discreta de mulheres e adolescentes pedirem ajuda, em casos de agressões

Publicado em 07 de Agosto de 2026 às 16:01

Larissa Cors

Publicado em 

07 ago 2026 às 16:01

Uma mulher de 28 anos foi resgatada, na última segunda-feira (3), na região central do Paraná, depois de fazer um gesto simples com a mão na rua. Abriu a palma, dobrou o polegar para dentro e fechou os outros quatro dedos por cima dele. Ela repetiu o movimento pelas costas do ex-companheiro, que caminhava ao lado dela.


De acordo com a Polícia Militar, o homem havia invadido a casa da vítima pouco antes, motivado por ciúmes do atual namorado dela, e passou a agredi-la com socos, chutes e um cabo de vassoura. Em seguida, ela foi obrigada a caminhar com ele até a casa do novo companheiro. Foi nesse trajeto que a mulher recorreu ao gesto.


Testemunhas que passavam de carro reconheceram o sinal e levaram os dois até a Polícia Militar, que prendeu o suspeito em flagrante por lesão corporal em contexto de violência doméstica. O caso segue sob investigação da Polícia Civil do Paraná.


Mas você conhece esse sinal? Saberia como agir se visse alguém fazendo?

Passo a passo de como fazer o gesto, que recebeu o nome de Sinal de Socorro Canadian Women's Foundation
Como funciona

O chamado sinal universal (ou internacional) de socorro é feito em três movimentos simples: a pessoa levanta uma das mãos com a palma voltada para fora, dobra o polegar para dentro da própria palma e, então, fecha os outros quatro dedos por cima do polegar, "prendendo-o" dentro do punho.


O gesto pode ser feito em sequência, o que aumenta as chances de ser notado por outras pessoas.


Idealizado pela organização Canadian Women's Foundation, o sinal não tem um significado literal como “chame a polícia” ou qualquer outro pedido específico. Ele apenas identifica que aquela pessoa está sendo vítima de violência doméstica e busca ajuda. 


De acordo com a delegada da Gerência de Proteção à Mulher da Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp), Natália Tenorio, o sinal é uma forma facilitada de alerta. "É uma forma discreta de pedir ajuda, inclusive porque viabiliza o pedido sem a necessidade de verbalizar."


O gesto foi desenhado para ser executado com uma única mão e para não exigir nenhuma palavra, permitindo que a vítima seja discreta. Antes de ser divulgado em 2020, o sinal passou por consulta a especialistas em linguagem de sinais, justamente para garantir que não coincidisse com nenhuma letra ou expressão já usada nessa forma de comunicação.

Reconheceu o gesto? Como agir

"Ao notar uma mulher fazendo o sinal, em uma situação que aparenta pedido de ajuda, havendo possibilidade, tente conversar em particular, de forma discreta, para averiguar se é de fato um pedido de ajuda", orienta a delegada Natália.


"Não havendo essa possibilidade, ao observar que o contexto indica situação real de risco, acione a Polícia Militar, por meio do 190", complementa.


A recomendação segue a mesma linha adotada pela Canadian Women's Foundation, organização que criou o gesto: não confrontar o agressor diretamente, já que uma abordagem direta pode colocar a vítima em risco maior; buscar uma forma segura e discreta de se aproximar, de preferência acompanhado (como fizeram as pessoas que pararam o carro no Paraná); se a abordagem direta não for segura, o ideal é procurar as autoridades e relatar o que foi visto.

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Nascido no isolamento da pandemia

O sinal foi apresentado ao público em 14 de abril de 2020, pela Canadian Women's Foundation, uma organização sediada em Toronto, no Canadá, e voltada à defesa de mulheres.


"O sinal universal para as mulheres em situação de violência doméstica e familiar que desejam pedir ajuda foi repercutido durante a pandemia, momento no qual a sociedade e os meios de comunicação passaram a falar sobre a sua existência", conta a delegada.


O momento de divulgação foi pensado justamente pelo impacto das primeiras semanas de confinamento por causa da Covid-19. Em diversos países, houve um aumento expressivo de casos de violência doméstica e o isolamento tornou ainda mais difícil o contato entre as vítimas e o mundo fora de casa.

A fundação optou por lançar o sinal sem marca própria, como um kit de instruções aberto, em inglês, francês e espanhol, para que qualquer pessoa ou organização pudesse adotá-lo e divulgá-lo livremente.

Vítima de violência faz sinal de socorro, é ajudada por testemunhas e homem é preso, no Paraná
Vítima de violência fez sinal de socorro, no Paraná, após sofrer agressões do ex-companheiro Reprodução de vídeo
Estatísticas que assustam

A urgência de existir uma forma discreta de pedir ajuda fica clara diante dos dados da violência de gênero no Brasil. De acordo com o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, o maior número da série histórica iniciada em 2015, quando o crime passou a ter tipificação própria.


O levantamento também mostra que, para cada feminicídio registrado no país em 2025, houve, em média, 502 boletins de ameaça, 182 casos de lesão corporal em contexto de violência doméstica, 84 descumprimentos de medidas protetivas de urgência e 79 ocorrências de perseguição.


Em quase 80% dos casos com autoria identificada, o agressor era companheiro ou ex-companheiro da vítima e a maior parte dos crimes acontece dentro da própria casa da mulher.


É nessas situações, em que a vítima está próxima ou na presença do agressor, sem poder falar ou usar o telefone livremente, que o sinal pode funcionar.

O sinal não é uma garantia

A própria eficácia do sinal depende de um fator que está fora do controle de quem o faz: alguém, do outro lado, precisa reconhecê-lo. "É um sinal que tem grande potencial quando o objetivo é pedir ajuda de forma discreta e com segurança. Ocorre que, para ser eficiente, depende de uma condição fundamental: outras pessoas precisam reconhecê-lo e saber o que fazer ao testemunhar um pedido de ajuda", explica Natália Tenório.


Segundo ela, ainda existe um número muito grande de pessoas que nunca ouviram falar do gesto ou sabem muito pouco sobre ele. Uma proposta de solução seria a divulgação nas escolas, em diálogo com estudantes sobre violência contra a mulher e em treinamentos com professores, dentro das empresas, nos meios de comunicação e em campanhas.


Ela também aborda os influenciadores e criadores de conteúdo, que podem se tornar aliados no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres.

O enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher é uma luta de todos nós, e a sociedade também deve fazer a sua parte. Ninguém pode se calar diante da violência alarmante que estamos vivenciando.

Natália Tenório delegada da Gerência de Proteção à Mulher da Sesp

Para vizinhos ou familiares que sabem de uma mulher em situação de violência, mas temem se envolver diretamente, a delegada lembra que existe o Disque-Denúncia: pelo número 181, é possível relatar os fatos com garantia absoluta de anonimato, para que sejam apurados pela polícia.


Precisa de ajuda ou conhece alguém que precisa?

  • Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher, 24h)
  • Ligue 190 (emergência policial)
  • Ligue 181 (Disque-Denúncia, anonimato garantido)

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