Neste mês, celebra-se o Janeiro Branco. A campanha surgiu em 2014 com o objetivo de conscientizar a população sobre a importância dos cuidados com a saúde e o bem-estar mental, disseminando conhecimento e informações sobre depressão, ansiedade e outros transtornos, diminuindo o preconceito que ainda existe em relação ao tema e à busca por ajuda de profissionais da psiquiatria e da psicologia.
Os tabus e o preconceito quanto à temática são resquícios que perduram de tempos em que não se sabia como lidar com qualquer tipo de doença mental. Em períodos passados, a alienação mental, nos aspectos social e cultural, por não ser plenamente compreendida, era vista como possessão demoníaca.
Atualmente, a despeito dos avanços no campo da psiquiatria e da psicologia, ainda há quem associe transtornos mentais à falta de fé ou de Deus, o que constitui uma visão equivocada, reducionista e profundamente preconceituosa.
A psiquiatria é uma especialidade médica relativamente recente e teve como marco os trabalhos dos médicos franceses Philippe Pinel e Jean-Étienne Esquirol, que defenderam que quem sofre de transtornos mentais é doente e, por isso, deve receber tratamento adequado. Hoje, a ciência já é capaz de afirmar que os transtornos mentais decorrem de processos neuroquímicos complexos, multifatoriais, e que seu surgimento independe da vontade do indivíduo.
Ninguém escolhe adoecer mentalmente e, por maior que seja a força de vontade, ela, muitas vezes, não é suficiente. Assim, quem sofre de transtornos mentais necessita de acompanhamento psicológico, tratamento médico e, não raramente, de intervenção medicamentosa.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta há anos que os transtornos mentais são responsáveis por mais de um terço das incapacidades nas Américas, especialmente os transtornos de humor e de ansiedade. Apesar disso, observa-se um profundo descompasso entre a demanda da população e a capacidade de atendimento da rede pública de saúde.
Embora os serviços de psiquiatria e psicologia sejam formalmente ofertados pelo sistema público, na prática, o agendamento de consultas é difícil, demorado e, muitas vezes, inacessível, revelando um abismo entre o direito assegurado e sua efetiva concretização.
Cada vez mais pessoas jovens são diagnosticadas com transtornos mentais, sobretudo no campo da ansiedade. Além disso, episódios recorrentes de fúria, explosões emocionais desproporcionais e conflitos constantes nas relações sociais não devem ser naturalizados, pois podem representar sinais claros de adoecimento psíquico.
Esse cenário se agrava em um contexto marcado por incertezas econômicas, instabilidade política, flertes com discursos de ódio, intolerância crescente, temor de conflitos armados e guerras, elementos que atuam como gatilhos permanentes de sofrimento mental coletivo.
A pandemia de Covid-19 já passou, mas seu impacto vai muito além das perdas humanas. Além das mortes, deixou um rastro significativo de transtornos mentais pelo caminho, em razão do luto, do isolamento social prolongado, da insegurança econômica ou do colapso emocional vivenciado por milhões de pessoas. A naturalização da indiferença diante do sofrimento alheio e a superexposição às redes sociais também figuram como fatores de risco relevantes à saúde mental contemporânea.
Daí a importância do Janeiro Branco. O ideal seria que todos tivessem acesso a avaliações periódicas de saúde mental e à psicoterapia, não apenas como tratamento, mas também como forma de prevenção, aprendizado emocional e construção de uma convivência social mais empática e saudável. Afinal, cuidar da saúde mental é cuidar da própria humanidade.