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Tecnologia

Elon Musk e as big techs: soberania e democracias em risco

O sonho de uma revolução 4.0, libertária em si mesma, virtuosa e transformadora da realidade, mostrou-se um pesadelo do qual não acordaremos tão rapidamente

Publicado em 16 de Abril de 2024 às 01:30

Públicado em 

16 abr 2024 às 01:30
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Não é preciso ser especialista em tecnologia da informação para saber que os multibilionários, donos das big techs, controlarão o mundo, direcionando os governos, a política e o mercado para o lado que desejarem.
Sem querer ser pessimista, mas, em uma perspectiva bastante realista e com base em evidências científicas, é possível constatar nossa incapacidade para fazer frente ao poderio que se concentra nas mãos de poucos bilionários que, podendo dominar o mundo, jamais abrirão mão da força que detêm e que pode levá-los onde quiserem.
Resta apenas saber se eles se unirão nessa marcha ou se autodestruirão em disputas pelas fatias mais rentáveis dos negócios.
Não há como negar. Eles já provaram sua eficiência/eficácia e, alguns, como Elon Musk, nem se preocupam mais em disfarçar ou esconder seu projeto de poder mundial. Ele quer as reservas de lítio e quer ver seus negócios prosperarem, independentemente de como o mundo sairá depredado ou como os governos se organizarão.
Ao afirmar, com naturalidade, durante as eleições na Bolívia, “vamos dar o golpe em quem quisermos”, sem qualquer tentativa de escamoteamento da verdade, Musk escancara a verdade nua e crua que queremos esconder de nós mesmos. Fomos capturados pelas facilidades que nos foram sendo apresentadas pela Revolução 4.0 e pelos prazeres de uma sociedade de consumo, seja de bens, seja de informações.
Informação é poder e eles possuem informações suficientes para o exercício de ruptura democrática sobre o qual se sustentam os projetos da ultradireita.
O certo é que as democracias progressistas e comprometidas com a garantia dos direitos fundamentais são um entrave aos projetos de concentração de poder e de riquezas que eles almejam de forma radical.
Referir-se a Musk como “bilionário viciado em ketamina e cocaína”, assediador, que faz festas de arromba nas quais rola todo tipo de drogas, dizer que ele foi denunciado por seus CEOs que relataram sua devassidão e os riscos que correm os acionistas de suas empresas, não faz diferença alguma. É, provavelmente, apenas uma manifestação de indignação de quem se sabe impotente para resistir aos ataques violentos que sofre.
Da mesma forma, é preciso compreender que o problema não é a questão da liberdade de expressão e se ela é absoluta ou não. Todos, os que têm alguma lucidez e condição intelectual básica, sabem que não existem direitos absolutos.
Elon Musk, proprietário da rede social X
Elon Musk, proprietário da rede social X Crédito: Reprodução
A experiência americana, de liberdade de expressão sem limites, na qual todos podem proclamar seu pensamento da forma como desejarem, inclusive com discursos de ódio, tem se mostrado um risco para a democracia americana. Cresce nos EUA, assim como em todos os países nos quais a extrema direita vai se capilarizando, o racismo, a ameaça a jornalistas, o discurso religioso carregado de ódio e de violência, a xenofobia, a disseminação de mentiras e a tentativa de descredibilização do Estado, em especial do Poder Judiciário.
Os próprios defensores radicais da liberdade de expressão irrestrita sabem que ela não existe. Sustentam discursos de defesa de liberdade absoluta, mas se submetem às regras do jogo jurídico, restritivos dessas mesmas liberdades, quando os que controlam o jogo são governos de ultradireita.
Também se contradizem assumindo posições aparentemente submissas a decisões judiciais, para garantir que políticos autoritários vençam as eleições em qualquer parte do mundo, ampliando o escopo de controle dos países sob a égide dos valores ditatoriais.
Os casos da sujeição de Musk aos governos da Turquia e da Índia, removendo postagens críticas ao governo ou expulsando jornalistas que denunciam suas manipulações da verdade com fake news e discursos de ódio, é evidenciador dessa aparente contradição entre submissão às decisões judiciais ou tentativas de desmoralização do Judiciário.
O desacato perpetrado por Musk ao ministro Alexandre de Moraes com sucessivas manifestações de ultraje e afronta ao STF e ao ministro, faz  parte de uma estratégia que vem sendo utilizada pela extrema direita em todo o mundo.
Ao afirmar que o "juiz traiu descaradamente e repetidamente a Constituição e o povo do Brasil e deveria renunciar ou sofrer impeachment”, Musk reforça não apenas sua indignação contra a decisão judicial, mas sobretudo uma afronta à democracia brasileira, deixando claro seu poder de manipulação e controle da vontade nacional por meio das milícias digitais que comanda e que financia.
A questão é muito mais ampla e complexa do que o debate sobre violação do direito à liberdade de expressão. O que está em jogo, verdadeiramente, é a guerra contra as democracias e o desejo irrestrito de implantar regimes autoritários espalhados pelo mundo, nos quais os governantes estejam comprometidos com interesses privados e não com interesses públicos.
Por meio das estratégias algorítmicas, e do poder emanado da concentração de informações, as grandes empresas de tecnologia da informação e as big techs, como as comandadas por Elon Musk, vão constituindo uma casta que controla e administra o Estado, o mercado e a política, do modo como entendem ser melhor para seus próprios negócios e interesses.
As democracias estão em risco. O capitalismo mostrou sua face mais perversa, ou melhor, sua verdadeira face bonita escamoteada por maquiagens e discursos inclusivos.
O sonho de uma revolução 4.0, libertária em si mesma, virtuosa e transformadora da realidade, mostrou-se um pesadelo do qual não acordaremos tão rapidamente, ou, talvez, nunca acordemos.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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