Em minhas andanças pelo mundo, já estive em Cuba quatro vezes, e pude presenciar fases diferenciadas de sua história de enfrentamento do gigante vizinho norte-americano e de sua heroica luta pela sobrevivência como país socialista.
É o único da América, um dos poucos do mundo, e creio que não resistirá mais por muito tempo. Pelo menos é o que li no livro "Ir até Havana", de um dos maiores escritores cubanos da atualidade, Leonardo Padura (1955), que, espero, venha ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, pois merece.
Minha primeira ida a Cuba foi em janeiro de 1986, há 40 anos, para participar de um congresso de professores. Éramos muitos docentes brasileiros, “sonhadores de um mundo melhor”, que visitávamos a ilha de Fidel e companheiros, para conhecer o modelo de educação socialista ali implantado.
A escola de tempo integral com diferentes conteúdos era uma novidade para nós. Até aula de etiqueta à mesa assistimos, surpresos, pois faltava quase tudo à ilha devido ao bloqueio norte-americano imposto ao país desde a implantação do modelo socialista. Cuba era uma referência na saúde, na educação e nos esportes, amplamente assistida pela URSS, da qual dependia em tudo.
Voltei em 1993, com a esposa, e o caos estava implantado com a dissolução da URSS, poucos anos antes, tendo ficado a ilha órfã de pai e de mãe. Desde o aeroporto, vivemos o terror, pois o voucher que levamos de pensão completa foi solicitado pela moça que nos recepcionou, e nunca mais os vimos, nem a moça nem o voucher.
Tinha comprado um pacote com 4 dias em Havana e 3 em Varadero, e o único comprovante que tínhamos dos serviços oferecidos estava no bendito voucher. Sabíamos os hotéis onde nos hospedaríamos e a nossa reserva lá estava garantida, pelo menos. Vimos turistas italianos que dormiam na recepção, pois não lhes garantiram a hospedagem. O problema era a comida, pois o hotel dizia que só tínhamos direito ao café da manhã. Foi tenso.
Observamos que a comida que sobrava no jantar eles colocavam no bufê da manhã. E a situação dos turistas não era boa, pois quando saíamos crianças nos pediam para comprar enlatados de carne na loja do hotel, pois tinham fome e nada para comer. Com o coração apertado, vi que o país estava em bancarrota e até para sair tivemos que enfrentar uma multidão desesperada por um lugar no avião, visto que nossa reserva tinha caído.
Quando conseguimos uma passagem e chegamos a Caracas, na Venezuela, respiramos aliviados, saudando a liberdade. Cuba era uma prisão e quase todos queriam fugir de lá. Atualmente, cerca de 2,5 milhões de cubanos vivem nos EUA e, na mais recente onda de emigração cubana, de 2022 a 2024, mais de 500 mil cubanos saíram da ilha. Atualmente, eles buscam a rota terrestre, via Nicarágua, e não mais pelo mar, os “balseros”, como antes.
Passei por Cuba, em 1995, quando meu filho me pediu para levá-lo à Jamaica, pois queria conhecer a terra consagrada por Bob Marley. O voo mais barato era pela Cubana de Aviación. Estivemos em Havana na ida e na volta e levei-o ao Tropicana para assistir ao show ao ar livre mais espetacular do mundo e aos lugares famosos turísticos, ao Fioridita, onde tomamos o daiquiri imortalizado por Hemingway, e ao Bodeguita, para comer o ‘moros e cristianos’, o arroz com feijão deles.
Caminhamos pelas ruas antigas de Habana Vieja, onde a prostituição rolava solta. Na Jamaica, percebemos que a maior parte das praias estava privatizada, ao contrário de Cuba, e o que abundava era a violência. Kingston, a capital, é uma das cidades mais perigosas do mundo, e os turistas se limitam aos resorts e hotéis espetaculares, onde jamaicanos só entram como serviçais.
Por último, voltei a Cuba, em 2017, para fazer um cruzeiro em torno da ilha em um navio grego, arrendado por companhia canadense. O país estava melhorando, pois o presidente Barack Obama havia restabelecido as relações diplomáticas com Cuba e suspendido o bloqueio econômico. O país vivia um surto de esperança. Pude visitar Santiago de Cuba, do outro lado da ilha, Cienfuegos e a bela cidade de Trinidad, uma relíquia colonial, tombada pela Unesco.
Os artistas do navio eram cubanos e pude assistir a lindos shows com artistas locais, não fosse a música cubana uma delícia para ouvir e dançar. Diversos ritmos nasceram lá, como a salsa e o chá-chá-chá. Parece que o país vive uma crise musical mundial, conforme revela Padura, em seu livro, e o tal do ‘reggaetón’ inferniza os ouvidos dos que viveram outros tempos.
Enfim, recomendo a leitura dos livros do Padura, um jornalista-escritor cubano que, mais do que qualquer outro, ama seu país, sem por isso deixar de ter um olhar crítico sobre ele. Com a volta de Trump, o sanguinário, ao poder, Cuba vive a sua pior crise, sem o apoio da Venezuela e da Rússia.
Não sei se resistirá ao desamparo e poderá se tornar mais um satélite estadunidense como Porto Rico, pondo fim a sua heroica história de regime socialista. Que Nossa Senhora da Caridade do Cobre, sua padroeira, e todos os orixás de sua ‘santeria’ africana a protejam do ódio trumpestre.