Na última segunda-feira (4), o presidente Lula assinou a Medida Provisória do Novo Desenrola Brasil. O programa promete descontos de até 90% em dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal para quem ganha até R$ 8.105 por mês. Em 90 dias, a expectativa do governo é alcançar até 27 milhões de brasileiros e renegociar cerca de R$ 100 bilhões em dívidas. É muita coisa. E é uma oportunidade real. Mas antes de correr para o banco, vale entender o que está nas letras miúdas.
Até aqui, tudo bom. Agora vamos ao que os comunicados oficiais não deixam tão claro.
Pegadinha 1: o desconto não é automático. O percentual de desconto depende do tipo de dívida e do tempo de atraso. Quem está há apenas 90 dias atrasado pode receber apenas 30% de desconto. Quem está há dois anos em atraso pode chegar aos 90%. Ou seja, quanto pior a situação, melhor o desconto. Mas em todos os casos, é o banco que faz a oferta. Aqui é o segredo é não aceitar a primeira proposta que chegar sem questionar. Sempre tente negociar para melhorar a condição.
Pegadinha 2: o novo crédito também tem juro. Depois do desconto, o saldo restante é parcelado com taxa de até 1,99% ao mês. Parece pouco. Mas veja o que isso significa na prática:
A lição é simples: o Desenrola pode ser um ótimo ponto de partida, mas parcelar em muitos meses transforma um desconto de 90% num novo endividamento de longo prazo, que também vai custar caro. Quanto mais curto o prazo que você conseguir pagar, melhor.
Pegadinha 3: o uso de bets ficará bloqueado por 1 ano. Quem aderir ao programa terá o CPF bloqueado em plataformas de apostas online por 12 meses. A medida causou polêmica, mas ela diz muito sobre o diagnóstico que o próprio governo fez do endividamento brasileiro: uma parte relevante de quem está no vermelho chegou lá pelas apostas. O bloqueio não é punição. É uma tentativa de evitar que o ciclo recomece.
Sair da dívida sem mudar o comportamento é como esvaziar um balde furado. O Desenrola fecha o buraco uma vez. Só você pode fechar de vez.
E é aqui que mora o ponto mais importante desta coluna: o que vem depois?
O Desenrola anterior, lançado em 2023, ajudou milhões de pessoas. Mas uma parte delas voltou a se endividar nas mesmas modalidades em menos de um ano. Não por má-fé. Por falta de um plano. Renegociar a dívida é o primeiro passo, mas sem mudar a relação com o dinheiro, é questão de tempo até o problema voltar.
Se você vai usar o programa, ou conhece alguém que vai, leve junto estes três passos:
- Antes de assinar qualquer acordo, peça propostas em pelo menos dois bancos onde você tenha dívidas. Compare desconto, prazo e parcela. A primeira oferta quase nunca é a melhor opção.
- Escolha o menor prazo que o seu orçamento aguentar. Como mostra a tabela acima, prazos longos transformam o alívio em nova armadilha. Se precisar, reduza outros gastos para conseguir quitar mais rápido.
- Assim que a dívida estiver sob controle, reserve ao menos R$ 50 por mês para uma reserva de emergência. Pode parecer pouco, mas em um ano você tem R$ 600. Em dois, R$ 1.200. É esse dinheiro que impede que o próximo imprevisto vire nova dívida.
O Desenrola é uma oportunidade concreta. Use com inteligência, negocie bem e, principalmente, não deixe para depois. O programa dura 90 dias. Avalie bem, mas não demore: depois que fechar, não tem como voltar atrás.
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