A Polícia Federal (PF) indiciou o líder comunitário e candidato a vereador de Vitória nas eleições de 2024 Evandro Figueiredo Boldrine (PP) e seu colaborador de campanha, Fabrício Trevisani de Oliveira, por crime de falsidade ideológica eleitoral. O relatório final do inquérito indica o desvio sistemático de salários de servidoras comissionadas da Câmara de Vitória para custear despesas de campanha sem registro oficial.
Poucos dias após a conclusão do inquérito, Evandro foi exonerado do cargo que ocupava na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales). O ex-candidato nega envolvimento nos fatos apontados pela PF. A reportagem não conseguiu localizar Fabrício Trevisani de Oliveira.
De acordo com a PF, Evandro teria usado sua influência política para indicar pessoas a cargos de confiança no gabinete do vereador Leandro Piquet (PP), então presidente da Câmara de Vitória. Em troca da nomeação, os servidores seriam obrigados a devolver mensalmente R$ 1,5 mil de seus salários para financiar a campanha. Evandro terminou a eleição com 1.860 votos, na suplência do partido.
O crime de falsidade ideológica eleitoral consiste em omitir ou inserir declaração falsa em documento público ou particular para fins eleitorais. A pena prevista é de até cinco anos de prisão, além de multa.
As suspeitas de “rachadinha” não foram investigadas pela PF, por não serem de sua atribuição. Esses fatos estão sendo apurados pela Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), por meio da Delegacia de Combate à Corrupção (Deccor).
Procurado pela reportagem, Evandro afirma que não se apropriou de salários de servidores do gabinete de Piquet. O ex-presidente da Câmara, que não é investigado no caso, sustenta que não teve participação nas práticas apontadas pela Polícia Federal.
No relatório, consta que uma das servidoras ouvidas pela PF procurou Piquet para relatar que estaria sendo pressionada a repassar parte de seu salário. De acordo com o depoimento dela, o então presidente da Casa de Leis teria dito que "devia favores" a Evandro. Dias depois dessa conversa, em setembro de 2024, a servidora foi exonerada.
À reportagem, Piquet afirma que, ao tomar conhecimento do suposto esquema, orientou a servidora a procurar a polícia, além de determinar o afastamento temporário dela das funções. A íntegra das respostas está disponível ao final do texto.
Após a conclusão das investigações, o caso foi encaminhado à Justiça Eleitoral e aguarda manifestação do Ministério Público Eleitoral (MPE-ES), que decide se apresenta ou não denúncia. Na última quarta-feira (23), o órgão ministerial pediu novas diligências à Polícia Federal.
Servidora denunciou esquema
Evandro Figueiredo alega que "o inquérito policial é fruto de uma denúncia anônima, afirmando que indiquei uma pessoa em um gabinete de um vereador, que foi meu concorrente nas eleições".
No entanto, segundo a Polícia Federal, o caso veio à tona após denúncia espontânea de uma ex-servidora indicada por ele para o cargo. À polícia, ela afirmou que, em um período em que estava desempregada, buscou a ajuda de Evandro para conseguir um emprego. Por intermédio dele, foi inicialmente alocada em entidades ligadas à Prefeitura de Vitória e, em julho de 2024, nomeada para o cargo de secretária parlamentar no gabinete de Piquet, com quem até então ela não tinha vínculo.
Com remuneração mensal de R$ 6.103, entre salário e benefícios, a funcionária teria sido obrigada por uma mulher, que agiria a mando de Evandro, a realizar uma transferência via Pix de R$ 1.500 para ela. Em mensagens trocadas entre elas e obtidas pela PF, a mulher afirma: "Ele combinou 1.500 reais", referindo-se ao então candidato a vereador.
No mesmo dia em que a servidora que denunciou o suposto esquema foi exonerada, outra mulher foi nomeada para o cargo. A funcionária que assumiu o posto, também por indicação de Evandro, era parente do outro indiciado, Fabrício Trevisani de Oliveira, de acordo com a PF.
O relatório do inquérito aponta que, diferentemente da antecessora, a nova servidora teria repassado parte de seu salário. Extratos bancários analisados indicam que, após receber seus vencimentos, ela fez transferências de R$ 1,5 mil para o irmão, apontado como operador do susposto esquema.
Evandro também afirmou à reportagem que as pessoas envolvidas no inquérito "foram ouvidas e disseram que não repassaram nenhum valor para mim". No entanto, uma das servidoras confirmou que foi pressionada a repassar R$ 1,5 mil para o ex-candidato. Já a mulher que fez a cobrança afirmou à PF que cobrou a quantia da funcionária porque ela "devia a Evandro", em razão do emprego que ele havia conseguido para a servidora.
Em seu depoimento, o suposto operador do esquema, Fabrício, disse que recebeu repasses da parente que trabalhava no gabinete de Piquet como "retribuição pela ajuda financeira que costumava prestar a ela".
A reportagem não conseguiu localizar Fabrício nem as ex-servidoras para comentar o caso. O espaço segue aberto para manifestações.
Dinheiro distribuído entre colaboradores de campanha
A investigação indica que Fabrício recebia os valores — por Pix ou em espécie — e os repassava em dinheiro vivo a colaboradores da campanha de Evandro.
Uma dessas colaboradoras afirmou em depoimento ter recebido pagamentos por serviços como “boca de urna”.
A PF destaca que mensagens trocadas via WhatsApp mostram que essa mulher coordenava ações, como envio de chaves Pix e pedidos de material de campanha. O trabalho teria contribuído para cerca de 300 votos dos 1.860 obtidos pelo candidato.
Para a Polícia Federal, o depoimento foi relevante por indicar que o dinheiro retirado dos salários das servidoras era convertido em espécie e usado para pagar cabos eleitorais de forma informal.
“Rachadinha” é apurada pela Polícia Civil
O relatório também cita a atuação da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), que conduz uma investigação paralela (Inquérito Policial nº 008/2025), por meio da Delegacia de Combate à Corrupção (Deccor).
No âmbito federal, a apuração se limitou ao crime de falsidade ideológica eleitoral. Já as suspeitas de “rachadinha” — como a devolução de parte dos salários, que pode configurar peculato, concussão ou corrupção passiva — não foram investigadas pela PF, por não serem de sua atribuição. Esses fatos estão sob responsabilidade da Polícia Civil e do Ministério Público Estadual.
Exoneração da Ales
Evandro foi exonerado do cargo que ocupava na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) no dia 17 de abril. Ele ocupava um cargo comissionado no gabinete do deputado Alcântaro Filho (Republicanos) desde outubro do ano passado, com salário de R$ 7.941.
Segundo o parlamentar, a decisão foi tomada assim que teve conhecimento do indiciamento.
“Os fatos noticiados não têm relação com sua atuação em nosso gabinete. A medida preserva o mandato e assegura a ele liberdade para exercer sua defesa. Minha postura é clara: não tenho compromisso com o erro nem com qualquer sombra de dúvida”, afirmou.
Resposta Evandro Figueiredo
"Denúncia sem prova documental"
"O inquérito policial é fruto de uma denúncia anônima, afirmando que indiquei uma pessoa em um gabinete de um vereador, que foi meu concorrente nas eleições de 2020 e que teria pedido dinheiro a essa pessoa. Durante o inquérito, todas as pessoas envolvidas na denúncia foram ouvidas e disseram que não repassaram nenhum valor para mim. A acusação é de um suposto caixa dois na campanha eleitoral no valor de R$ 1,5 mil, sem nenhuma prova documental. Se houver denúncia, pois ainda não existe, vou responder com muita tranquilidade. Estou muito tranquilo que comprovarei mais uma vez minha inocência”
Resposta Leandro Piquet
"Colaboração com as investigações"
"Leandro Piquet foi o vereador que mais economizou verba de gabinete durante toda legislatura. Ao tomar conhecimento de possíveis irregularidades, orientou a servidora a registrar ocorrência junto à polícia. Em seguida, a servidora foi exonerada. Leandro Piquet nunca foi investigado e, desde o início, colaborou integralmente com as apurações, reafirmando seu compromisso com a legalidade, a transparência e o correto uso dos recursos públicos"