*Celso Bastos
O setor da construção civil enfrenta um dilema histórico: embora seja o principal motor do desenvolvimento socioeconômico, continua sendo um dos maiores geradores de resíduos e consumidores de recursos naturais do planeta.
Durante décadas, tentamos mitigar esse impacto com soluções paliativas no canteiro de obras. No entanto, reduzir o dano já não é suficiente. O futuro do ambiente construído exige uma mudança de paradigma: a transição do modelo linear para a Construção Circular e Regenerativa.
A diferença fundamental entre a sustentabilidade convencional e a regeneração reside na origem da decisão. Enquanto a sustentabilidade tradicional busca a neutralidade (netzero), a abordagem regenerativa pretende restaurar e revitalizar os ecossistemas no entorno das edificações.
O edifício deixa de ser um consumidor passivo para operar como um ativo vivo, gerando impactos positivos para a biodiversidade e para a economia local.
Esta transformação é decidida na prancheta. Cerca de 80% do impacto ambiental e dos custos do ciclo de vida de uma edificação são definidos ainda na fase de projeto. É na concepção que determinamos se um edifício será um futuro bota-fora de entulho ou um "banco de materiais" planejado para a desconstrução e reutilização.
Para viabilizar essa virada, a arquitetura e a engenharia precisam adotar estratégias consolidadas de ecologia industrial como: Design for Deconstruction (DfD), que seria projetar a desmontagem, permitindo a recuperação integral de componentes; o Passaporte de Materiais e BIM, mapeando a composição e a procedência dos insumos, garantindo rastreabilidade para a logística reversa; e a industrialização Off-site, incorporando métodos pré-fabricados de baixo carbono que eliminam o desperdício na origem.
O papel do arquiteto vai além de desenhar formas. Trata-se de assumir a governança técnica e a responsabilidade pelo ciclo completo de cada especificação. A construção regenerativa é uma exigência de mercado e de sobrevivência. A mudança na construção civil começa quando mudamos a intenção da nossa arquitetura desde a primeira linha traçada. A mudança começa no projeto.
*Celso Bastos é arquiteto e urbanista, Mestre em Engenharia Civil, Doutor em Engenharia Ambiental e Vice-Presidente Institucional da AsBEA/ES