Daqui de Belo Horizonte vos escrevo, pegando carona em Drummond, na voz de Milton Nascimento, nas canções de Beto Guedes e nesse ar com gosto de ferro que só as Gerais conseguem ter.
Nas últimas duas semanas passei por São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. E o que isso tem a ver com Vitória? Tudo.
Há algum tempo despertei para o urbanismo. Sou corretor de imóveis, metido a cronista e, agora, resolvi me dedicar aos estudos das cidades. Depois de tantos anos observando imóveis, percebi que uma casa não termina no portão e um apartamento não termina na varanda. A vida continua na calçada, na praça, na padaria e até na árvore que faz sombra no caminho.
O livro “A Cidade de 15 Minutos”, de Carlos Moreno, descortinou um universo novo para mim. Foi como trocar os óculos. A arquitetura não existe apenas para ser vista. Existe para ser sentida. Até um saguão de hotel pode acolher como uma casa.
Existe uma palavra bonita para esse pertencimento: topofilia. É o amor pelo lugar, o vínculo entre a pessoa e a cidade. Para mim, esse é o grau máximo de sofisticação do urbanismo. Cidade boa não é apenas aquela que funciona. É aquela que mora dentro da gente.
Rodei mais de 35 países. Agora, depois de três grandes cidades brasileiras, cada rua, praça e jeito de viver me fazem pensar em Vitória.
Cheguei à ilha em 1973, com quatro anos, vindo das Gerais. Um ano antes, de passagem pela Bahia, havia conhecido o cheiro do mar. Mas foi na Praia da Ilha do Boi que aquele cheiro embrenhou na minha alma. Em 1978 virei velejador. Regatas a vela, mercado imobiliário, cidade, vento, tudo a ver. É sempre uma questão de ler o ambiente, ajustar as velas e escolher o rumo.
Vitória me acolheu. Foi onde criei raízes, amizades, paixões e meu caminho profissional. Desde 1991 atuo no mercado imobiliário com um prazer que não diminuiu. Já ajudei mais de 3.500 famílias. Nunca trabalhei apenas com metros quadrados. Ajudei pessoas a escolher onde a vida aconteceria.
Vitória é um exemplo extraordinário de urbanismo. Poucas cidades entrelaçam tão bem a beleza natural e a mão do homem. Mar, montanhas, ilhas, aterros, avenidas, bairros e arquitetura compõem uma cidade singular. Ela não é perfeita. Cidade perfeita só existe na maquete, antes do trânsito, do boleto e do vizinho barulhento. Mas Vitória tem escala humana. Tem identidade. Tem alma.
Na semana passada recebi uma notícia maravilhosa: esta coluna está entre as mais lidas de A Gazeta. Confesso que ainda acho curioso ter leitores. Corretor eu sei que sou. Velejador também. Cronista, pelo visto, vocês estão deixando eu acreditar.
Hoje quero agradecer. A Vitória, por ter me recebido menino e me formado homem. Ao mercado imobiliário, por uma vida de encontros. E a vocês, por me permitirem dividir inquietações, memórias e algumas aventuras.
Quem sabe um dia eu consiga contribuir para o urbanismo das nossas cidades. Por enquanto, sigo observando. Com olhar de viajante, nunca de turista. Porque viajar é conhecer lugares. Mas, às vezes, um lugar também revela um pouco de nós mesmos.