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Verônica Bezerra

A nova Torre de Babel: o escândalo do Banco Master e a incomunicabilidade do poder

A sociedade civil e as instâncias de poder já não se compreendem. Os discursos oficiais sobre legalidade soam como ruídos incompreensíveis diante de decisões opacas

Publicado em 14 de Setembro de 2026 às 04:35

Públicado em 

14 set 2026 às 04:35
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra Verônica Bezerra

vcbezerra@gmail.com

Na vasta e árida planície de Senaar, os homens decidiram desafiar os limites da condição finita. Uniram-se sob a égide de um propósito megalomaníaco: erguer uma cidade fortificada e uma torre colossal cujo topo alcançasse os céus. O objetivo nunca foi a busca pelo bem comum, mas a consagração da própria glória, a busca por uma estabilidade inabalável e a autossuficiência que dispensasse qualquer alteridade ou freio moral. 


A engrenagem daquela civilização primitiva operava sob o signo da uniformidade absoluta: uma única língua, uma única tecnologia, uma única direção que esmagava qualquer nuance de diversidade.


A tragédia bíblica de Babel não reside apenas na arquitetura frustrada, mas na revelação perene de que toda construção erguida sobre a soberba e a absolutização do poder humano carrega, em seu âmago, a semente da própria ruína. 


Quando a elite se isola em sua torre de privilégios e perde o contato com a realidade da base, o idioma da justiça corrompe-se e a comunicação cede lugar à cacofonia. É exatamente essa alegoria ancestral que se reencarna, com contornos estarrecedores, no escândalo que recém veio à tona envolvendo o ecossistema do Banco Master e as entranhas do Supremo Tribunal Federal (STF).

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O que se descortina nas investigações recentes sobre a derrocada e as teias de influência do Banco Master, revelando fraudes sistêmicas, fundos cruzados e conexões escusas com o ápice da República, é a radiografia exata de uma modernidade que converteu o mercado financeiro e as instituições de controle em uma nova Babel.


Nessa estrutura moderna, a linguagem única foi substituída pelo tecnocracismo frio, pela engenharia financeira predatória e pelo pragmatismo cínico. Prometeu-se eficiência, mas entregou-se a rapina institucionalizada. O topo da torre, representado pelo conluio entre o capital desregulado e o poder político ou judicial desmedido, passou a operar em uma órbita rarefeita, impermeável aos abalos que sacodem a vida real do cidadão comum.



O que assombra na crise atual não é apenas a magnitude dos rombos financeiros ou a gravidade das suspeitas que atingem a mais alta Corte de Justiça do país, mas a naturalização com que o Estado de Direito foi instrumentalizado. Assim como os construtores de Babel sacrificaram o homem concreto em nome do monumento, o sistema permitiu que a ética coletiva fosse dilapidada para sustentar um arranjo de interesses oligárquicos.


Na arquitetura da cupidez, a matemática é cruel: para que o topo se sustente nas alturas, a base precisa afundar. O escândalo do Banco Master expõe a face mais perversa de um capitalismo de compadrio onde o vulnerável — o correntista lesado, o aposentado enredado em fraudes e o contribuinte anônimo — cumpre estritamente o papel de escada. O pobre torna-se o degrau utilitário de uma elite que perdeu completamente a noção de limite, de decoro e de solidariedade republicana.


Quando a justiça deixa de ser a guardiã da equidade para se converter em refém de gabinetes ensimesmados, o resultado é a repetição exata do mito bíblico: a confusão das línguas. A sociedade civil e as instâncias de poder já não se compreendem. Os discursos oficiais sobre legalidade soam como ruídos incompreensíveis diante de decisões opacas, inquéritos avocados sob medida e o esgarçamento óbvio do pacto republicano. 

Banco Master Banco Master/Divulgação

A República foi, temporariamente, sequestrada por vaidades e interesses que zombam do sentimento nacional.


A derrocada de Babel ensina que nenhum império, por mais blindado que pareça por muralhas de silêncio, sigilos processuais ou alianças de cúpula, é eterno. A realidade cobra o seu preço na proporção exata da hybris cometida.


O escândalo do Banco Master colocou o STF e as demais instituições diante do tribunal irrevogável da história e da opinião pública. Se a Corte persistir na tentativa de gerenciar a crise por meio de subterfúgios corporativos ou blindagens sistêmicas, a confusão institucional se aprofundará, ruindo o pouco de coesão democrática que ainda resta ao país.


É urgente descer da torre de marfim. É preciso abandonar a linguagem hermética da impunidade e reencontrar o idioma comum da transparência, da ética e da decência. Sem que a justiça volte a descer à planície para servir ao povo, e não a si mesma, o Brasil continuará a assistir, perplexo, aos escombros cotidianos de uma Babel que insiste em desabar sobre a cabeça de quem menos tem.


Verônica Bezerra

Verônica Bezerra Verônica Bezerra

É advogada, doutoranda em Ciências Sociais, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais, especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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