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Vitor Vogas

A volta ao mundo de Arnaldinho Borgo em 365 dias

Prefeito de Vila Velha não será candidato a nada, mas foi o personagem mais marcante da pré-campanha no ES. Seu último ano foi de muitas movimentações e mudanças radicais de posição

Publicado em 03 de Agosto de 2026 às 05:00

Públicado em 

03 ago 2026 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Canto superior esquerdo (maio/2025); canto superior direito (fevereiro/2026); foto inferior (julho/2026)
Canto superior esquerdo (maio/2025); canto superior direito (fevereiro/2026); foto inferior (julho/2026) Fotomontagem

Que me desculpem os terraplanistas, mas quem dá uma volta completa ao redor da Terra retorna, exatamente, para o mesmo lugar. A viagem é longa, mas o destino final é o ponto de partida. Foi o que fez o prefeito Arnaldinho Borgo (PSDB), metaforicamente, dando a volta ao mundo político capixaba no intervalo exato de um ano: 365 dias.

 

No último dia 29 de julho, em convenção estadual, Arnaldinho oficializou o apoio dele mesmo e do seu PSDB a Ricardo Ferraço (MDB) para governador e a Renato Casagrande (PSB) para senador.

 

De certa forma, cumpriu sua palavra. Um ano antes, no dia 30 de julho de 2025, por meio de sua assessoria, o prefeito de Vila Velha enviou a seguinte declaração a este colunista:

 

“Fui convidado pelo governador [Casagrande] para uma reunião no Palácio juntamente com o vice-governador [Ricardo]. Foi uma conversa política sobre o futuro. Acertamos, sob a liderança de Casagrande, que iremos caminhar unidos no processo sucessório do ano que vem. Até lá nosso foco é manter o trabalho intenso realizando entregas, sempre com o objetivo de melhorar a vida das pessoas”.

O sinal ao mercado político não podia ter sido mais cristalino: havia, segundo Arnaldinho, um pré-compromisso firme entre eles três de caminharem juntos no processo eleitoral.

 

Como tal compromisso se confirmou no último dia 29, um leitor desavisado pode ser levado a crer que Arnaldinho, neste último ano, manteve-se paradinho, sem sair do lugar, e agora tão somente confirmou o que já indicara um ano atrás. Nada mais distante da verdade. O último ano de Arnaldinho foi de muitas movimentações e mudanças radicais de posição.

 

O prefeito de Vila Velha não será candidato a nada, mas foi o personagem mais marcante do processo pré-eleitoral no Espírito Santo, justamente por ter circunavegado o planeta político capixaba para, no fim das contas, tornar ao ponto de partida.

 

A coluna desta segunda-feira (3) recupera a carta náutica dessa viagem, em homenagem a Colombo, Magalhães, Galileu e Júlio Verne.

 

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De maio a julho de 2025: lançamento   

Quando disse “iremos caminhar unidos no processo sucessório [de Casagrande]”, Arnaldinho não disse que apoiaria Ricardo Ferraço. Àquela altura, na verdade, ele e Ricardo disputavam qual dos dois seria o candidato do grupo de Casagrande em 2026, com a prerrogativa do apoio do então governador.

 

Arnaldinho lutou muito para ocupar essa posição. Fez o que pôde para se viabilizar, incentivado pelo próprio Casagrande, que, em várias entrevistas, desde dezembro de 2024, incluiu-o em listas de aliados que poderiam representar seu grupo.

 

No dia 23 de maio de 2025, durante a parada cívica no aniversário da cidade de Vila Velha, foi tirada a primeira foto acima, com Arnaldinho, Casagrande e Ricardo dando-se as mãos.

 

Poucas semanas depois, em junho, o prefeito publicou em A Gazeta um artigo no qual lançou ao público as bases de sua pré-candidatura a governador.

 

Defendeu que os capixabas queriam, como sucessor de Casagrande, um governante com perfil conservador, testado e aprovado como gestor público e, acima de tudo, que representasse a renovação política e uma mudança de ciclo geracional no Governo do Estado.

 

Para bom entendedor: alguém como ele, não como Ricardo.  

 

No mês seguinte, veio sua declaração de que os três estariam juntos (sem especificar as posições). 

Novembro e dezembro de 2025: Ricardo prevalece

No dia 26 de novembro, em entrevista a este colunista, na iminência de assumir a presidência estadual do PSDB, Arnaldinho indicou a predisposição de se manter no mesmo grupo independentemente da escolha de Casagrande.

 

Admitiu, inclusive, atuar como cabo eleitoral do candidato da situação em Vila Velha, se não fosse ele o escolhido pelo governador.

 

Perguntei ao prefeito se ele considerava a hipótese de ser candidato a vice-governador de Ricardo. Ele respondeu assim:

“Eu não considero essa hipótese. Não é por causa de vaidade, é porque eu acredito que talvez eu não vou contribuir como vice. Neste momento eu acredito nisso. E também porque eu tenho a cidade de Vila Velha para tocar. Então, não é vaidade, não é sapato alto, é pé no chão, é entender que eu posso contribuir como governador. Mas também posso ajudar o nome, se eu não for candidato. E, se for o Ricardo, será ele que será ajudado”.

 

O grifo é meu. Perguntei-lhe então se, nesse caso, ele ajudaria Ricardo como um cabo eleitoral em Vila Velha.

“Com toda a certeza, igual eu fiz com o Renato Casagrande em 2022!”, respondeu, de bate-pronto, o prefeito.

Já no dia 4 de dezembro, ao assumir a presidência estadual do PSDB, Arnaldinho seguia esperançoso em ser o ungido por Casagrande – ainda mais com o sinal verde dado a ele por Aécio Neves para buscar construir sua pré-candidatura pelo PSDB.

 

Nessa mesma entrevista, Arnaldinho também acusou certo incômodo, ao disparar: “Na democracia, o poder não se reproduz em cativeiro”.

 

Duas semanas depois, no Salão Nobre do Palácio Anchieta, Casagrande anunciou publicamente aquilo que todos já sabiam: seu candidato à sucessão seria Ricardo.

 

Arnaldinho precisava reagir e o fez quatro dias depois, no dia 22 de dezembro, em novo artigo publicado em A Gazeta, intitulado “Renovação com experiência: o caminho que os capixabas apontam”.

 

No texto, o prefeito reafirmou que seguia vivo no páreo: “A decisão sobre quem vai dar continuidade aos bons governos dos últimos 24 anos, de Paulo Hartung e de Renato Casagrande, será do povo, no dia 4 de outubro”.

Fevereiro de 2026: o desfile com Pazolini

Aí veio o Carnaval de Vitória, trazendo consigo um episódio que instantaneamente virou capítulo obrigatório em qualquer almanaque da política do Espírito Santo no século XXI: o “desfile eleitoral” de Arnaldinho com Lorenzo Pazolini (Republicanos), principal opositor de Casagrande e adversário eleitoral do Palácio Anchieta.

 

No fatídico 6 de fevereiro, para perplexidade geral – sobretudo de Casagrande, cujo semblante não escondeu a mal contida ira interior –, Arnaldinho entrou com Pazolini no meio do Sambão do Povo, para o ato solene inaugural do desfile das escolas de samba: a entrega simbólica da chave da cidade para o Rei Momo. 

Arnaldinho e Pazolini juntos em fevereiro
Arnaldinho e Pazolini juntos em fevereiro Fotomontagem

Ao lado das respectivas esposas, os dois prefeitos passaram a madrugada de folia inteira juntos, literalmente atravessando de ponta a ponto a avenida, com os punhos erguidos, entre os desfiles das escolas do grupo especial. Capitalizaram ao máximo o momento.

 

Foi um tapa na cara do então governador. Mas o desfile foi além do Sambão.

 

Pelas semanas seguintes, até o início de março, Arnaldinho participou de uma série de atividades pré-eleitorais com Pazolini e, ainda, com Evair de Melo, um dos maiores adversários do governo Casagrande, incluindo bloco de carnaval em Castelo, trio elétrico em Piúma, visita de um ao gabinete do outro, oração a dois no Convento da Penha.

 

É dessa subida ao Convento a foto de Arnaldinho dando as mãos a Pazolini e Evair (acima).

 

Tudo isso em meio a uma série de posts em collab

20 de fevereiro: a confirmação da guinada

Em nova entrevista a este colunista no auge do “namoro” com Pazolini, Arnaldinho foi enfático no sentido de que ambos dividiriam o palanque na eleição estadual.

 

Transcrevo abaixo algumas linhas emblemáticas. Os grifos são meus:

 

Durante o processo eleitoral, vocês dois estarão do mesmo lado?

 

Sim. Nós estaremos do mesmo lado. De forma muito madura, nós sentamos, conversamos e alinhamos que temos as mesmas características, de sermos prefeitos inovadores, que fazem entregas que o povo deseja e que o Espírito Santo precisa disso: inovação, sustentabilidade e respeito ao nosso povo. E é isso que nós estamos trabalhando juntos, para que a gente possa construir o novo Espírito Santo.

 

Independentemente de posições, vocês estarão no mesmo palanque e na mesma coligação?

 

Com toda a certeza. [...]  

 

Isso significa dizer, prefeito, que o senhor não apoiará a candidatura do vice-governador Ricardo Ferraço ao Governo do Estado? O senhor já pode descartar essa possibilidade?

 

Eu nunca declarei que estaria com ele. Respeito o posicionamento dele, assim como respeito todos os posicionamentos, porque é da democracia. Mas eu tenho um posicionamento também, e não é escondido de ninguém. Meu posicionamento, inclusive, foi colocado pelo governador Renato Casagrande, que me lançou também candidato ao Governo do Estado. Ele fez a escolha dele, eu fiz a minha escolha de tocar o meu projeto para eu ser pré-candidato e candidato ao Governo do Estado.

 

O PSDB estará com o Republicanos?

 

Olha, tudo indica que sim, mas nós estamos dialogando para que isso aconteça.

 

E vocês dois, tanto o senhor como o prefeito Lorenzo Pazolini, vão renunciar em abril?

 

Eu não posso falar pelo Pazolini, posso falar por mim: tudo indica que o dia 4 de abril seja o meu último dia na condição de prefeito de Vila Velha.

 

Se ele também renunciar, só um dos dois, em se mantendo esse projeto conjunto, poderá ser candidato a governador. Nesse caso, o senhor acredita que o prefeito de Vitória possa desistir, abrir mão em favor do senhor para apoiá-lo ao Governo do Estado?

 

Olha, o que eu posso te afirmar é que nós estamos conversando muito, dialogando muito, para que a gente possa chegar num consenso, para a gente construir esse Espírito Santo que todo o povo deseja. Por onde a gente anda, por onde a gente passa, a sociedade deseja renovação, mas uma renovação já comprovada. Igual à minha aqui em Vila Velha, com tantas entregas, da mesma forma que o Pazolini tem feito lá em Vitória. Ou seja, são duas gestões vitoriosas, duas gestões de resultado, de entregas, de planejamento, de organização. É o que o Estado deseja para dar continuidade a esses últimos 24 anos de bom governo.

 

E qual será o critério de escolha? Serão pesquisas de intenção de voto? É quem estiver melhor lá em julho?

 

Não dialogamos sobre critério, nem dialogamos o que cada um vai ser. Só temos a certeza de que nós estaremos caminhando juntos para que o Estado se transforme nesse novo Espírito Santo que a gente se vê debatendo com a sociedade. 

Março de 2026: o recuo

Mas o amor de carnaval durou um mês. As águas de março fecharam não só o verão como as saídas para Arnaldinho.

 

De um lado, ele não teria chance de se candidatar a governador se seguisse no movimento de Pazolini, que jamais abriria mão a favor dele – até porque já estava lá antes e, ao contrário de Arnaldinho, manteve-se na mesma posição.

 

Do outro, seu cavalo de pau também implodiu qualquer esperança que ele ainda pudesse alimentar de fazer Casagrande voltar atrás e trocar Ricardo por ele na cabeça da chapa governista. Se voltasse para o lado do governo, teria de aceitar voltar “pelado” – sem poder apresentar condições, muito menos fazer exigências.

 

Por pouco mais de um mês, Arnaldinho sentiu na pele uma amostra do que é ser “um prefeito de oposição”: a mão amiga que por mais de cinco anos sustentara a sua bem-sucedida gestão de repente se retirara da cidade.

 

Politicamente isolado, com o PSDB desmantelado em tempo recorde no Espírito Santo, sem conseguir nem mesmo montar a chapa de federais “encomendada” por Aécio Neves e profundamente pressionado pelo governo nos bastidores, Arnaldinho viu-se sem escapatória.

 

Havia, é claro, o plano C, que era bancar a própria candidatura pelo PSDB, mas seria um projeto kamikaze, dificilmente avalizado pela direção nacional.

 

Já afastado de Pazolini, o prefeito começou a agitar o lenço branco para o governo em meados de março. No fim do mês, anunciou a decisão de permanecer no cargo, não disputar nada e concluir seu segundo mandato em Vila Velha.

 

Em meados de abril, primeiro mês do governo de Ricardo, acelerou-se sua reaproximação com Casagrande e com o novo governador. Os três logo voltaram a ser vistos em solenidades públicas em Vila Velha. Ah, a mão amiga do governo também retornou ao município. 

Maio de 2026: o retorno

No dia 29 de maio, Arnaldinho me concedeu a derradeira entrevista deste ciclo. Transcrevo (com grifo meu):

 

O senhor está apoiando a reeleição do governador em outubro?

 

Sim! Estou apoiando a reeleição de Ricardo. E estou apoiando Renato para o Senado. Acredito que é o melhor para o Espírito Santo.

 

No ano passado, o senhor chegou a defender publicamente algumas vezes, inclusive em artigos publicados na imprensa, a “mudança de um ciclo geracional” na política capixaba. Argumentou que os capixabas ansiavam por isso. O senhor reviu essa posição?

 

Sim. Acredito que a gente, às vezes no calor, às vezes numa decisão individual, deseja alcançar objetivos que se tem na vida. Eu ainda tenho o objetivo de ser governador. Eu só adiei o momento para me colocar à disposição do povo capixaba. Mas acredito que a continuidade do que já está dando certo é muito importante para o estado do Espírito santo, que vem sendo um dos melhores estados da federação.

 

O senhor tocou num ponto fundamental. Adiou para quando? 2030 é logo ali…

 

Eu adiei… Não sei se é 2030, não sei se é 2034. Um dia. Para quem está na política, para quem gosta de servir o povo, a gente se coloca à disposição. Não sei quando vai ser, mas é um desejo que tenho no meu coração. Quem sabe um dia eu possa realizar?”

 

E com o ex-prefeito Pazolini, o senhor mantém algum diálogo político?

 

Eu não tenho diálogo político, mas o respeito muito. Acho que qualquer pessoa que coloca o nome à disposição da nossa sociedade merece respeito.

Conclusões

Tudo considerado, o maior risco para Arnaldinho, nessa circum-navegação, é o de sair com a pecha de político inconsistente, de palavra pouco confiável… Aquele sobre quem, nas articulações com os demais, pode passar a pairar um “será?” ou um “senão”…

Na política, como dizem, ninguém assina contrato; a palavra do sujeito é tudo. E todo acordo, em essência, deve ser à prova de eventuais mudanças de conjuntura.

Ora, com tantos “reposicionamentos” em espaços de tempo tão curtos, o prefeito, sem o perceber, pode ter forjado para si mesmo a imagem de um líder cujo discurso transmite pouca segurança ao mercado político, cuja palavra se dobra com o vento, conforme se alterem as circunstâncias.

Perseguir sonhos e aspirações, sem permitir que terceiros lhe imponham limites, é mais que legítimo… Ninguém poderia negar esse direito a Arnaldinho. Mas as mudanças de rota neste caso foram tão extremas que o grande risco para ele é o de, na ânsia de crescer, ter saído desta viagem menor do que entrou… ao menos em termos de confiabilidade política.

 

Eis um ponto que merece a atenção do prefeito de Vila Velha, em sua promissora trajetória na vida pública.

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Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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