Que me
desculpem os terraplanistas, mas quem dá uma volta completa ao redor da Terra
retorna, exatamente, para o mesmo lugar. A viagem é longa, mas o destino final
é o ponto de partida. Foi o que fez o prefeito Arnaldinho Borgo (PSDB), metaforicamente,
dando a volta ao mundo político capixaba no intervalo exato de um ano: 365
dias.
No
último dia 29 de julho, em convenção estadual, Arnaldinho oficializou o apoio
dele mesmo e do seu PSDB a Ricardo Ferraço (MDB) para governador e a Renato
Casagrande (PSB) para senador.
De certa
forma, cumpriu sua palavra. Um ano antes, no dia 30 de julho de 2025, por meio
de sua assessoria, o prefeito de Vila Velha enviou a seguinte declaração a este
colunista:
“Fui
convidado pelo governador [Casagrande] para uma reunião no Palácio juntamente
com o vice-governador [Ricardo]. Foi uma conversa política sobre o futuro.
Acertamos, sob a liderança de Casagrande, que iremos caminhar unidos no
processo sucessório do ano que vem. Até lá nosso foco é manter o trabalho
intenso realizando entregas, sempre com o objetivo de melhorar a vida das
pessoas”.
O sinal ao mercado político não podia ter sido mais cristalino: havia, segundo
Arnaldinho, um pré-compromisso firme entre eles três de caminharem juntos no
processo eleitoral.
Como tal
compromisso se confirmou no último dia 29, um leitor desavisado pode ser levado
a crer que Arnaldinho, neste último ano, manteve-se paradinho, sem sair do
lugar, e agora tão somente confirmou o que já indicara um ano atrás. Nada mais
distante da verdade. O último ano de Arnaldinho foi de muitas movimentações e
mudanças radicais de posição.
O
prefeito de Vila Velha não será candidato a nada, mas foi o personagem mais marcante
do processo pré-eleitoral no Espírito Santo, justamente por ter circunavegado o
planeta político capixaba para, no fim das contas, tornar ao ponto de partida.
A coluna
desta segunda-feira (3) recupera a carta náutica dessa viagem, em homenagem a Colombo,
Magalhães, Galileu e Júlio Verne.
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Quando
disse “iremos caminhar unidos no processo sucessório [de Casagrande]”, Arnaldinho
não disse que apoiaria Ricardo Ferraço. Àquela altura, na verdade, ele e
Ricardo disputavam qual dos dois seria o candidato do grupo de Casagrande em
2026, com a prerrogativa do apoio do então governador.
Arnaldinho
lutou muito para ocupar essa posição. Fez o que pôde para se viabilizar, incentivado
pelo próprio Casagrande, que, em várias entrevistas, desde dezembro de 2024,
incluiu-o em listas de aliados que poderiam representar seu grupo.
No dia
23 de maio de 2025, durante a parada cívica no aniversário da cidade de Vila
Velha, foi tirada a primeira foto acima, com Arnaldinho, Casagrande e Ricardo
dando-se as mãos.
Poucas
semanas depois, em junho, o prefeito publicou em A Gazeta um artigo no qual lançou
ao público as bases de sua pré-candidatura a governador.
Defendeu
que os capixabas queriam, como sucessor de Casagrande, um governante com perfil
conservador, testado e aprovado como gestor público e, acima de tudo, que
representasse a renovação política e uma mudança de ciclo geracional no Governo
do Estado.
Para bom
entendedor: alguém como ele, não como Ricardo.
No mês
seguinte, veio sua declaração de que os três estariam juntos (sem especificar
as posições).
Novembro e dezembro de 2025:
Ricardo prevalece
No dia
26 de novembro, em entrevista a este colunista, na iminência de assumir a
presidência estadual do PSDB, Arnaldinho indicou a predisposição de se manter
no mesmo grupo independentemente da escolha de Casagrande.
Admitiu,
inclusive, atuar como cabo eleitoral do candidato da situação em Vila Velha, se
não fosse ele o escolhido pelo governador.
Perguntei
ao prefeito se ele considerava a hipótese de ser candidato a vice-governador de
Ricardo. Ele
respondeu assim:
“Eu não considero essa hipótese.
Não é por causa de vaidade, é porque eu acredito que talvez eu não vou
contribuir como vice. Neste momento eu acredito nisso. E também porque eu tenho
a cidade de Vila Velha para tocar. Então, não é vaidade, não é sapato alto, é
pé no chão, é entender que eu posso contribuir como governador. Mas também
posso ajudar o nome, se eu não for candidato. E, se for o Ricardo, será ele que
será ajudado”.
O grifo é meu. Perguntei-lhe então se, nesse caso,
ele ajudaria Ricardo como um cabo eleitoral em Vila Velha.
“Com toda a certeza, igual eu fiz com o Renato Casagrande em 2022!”, respondeu,
de bate-pronto, o prefeito.
Já no dia 4 de dezembro, ao assumir a presidência estadual do PSDB, Arnaldinho seguia
esperançoso em ser o ungido por Casagrande – ainda mais com o sinal verde dado
a ele por Aécio Neves para buscar construir sua pré-candidatura pelo PSDB.
Nessa
mesma entrevista, Arnaldinho também acusou certo incômodo, ao disparar: “Na
democracia, o poder não se reproduz em cativeiro”.
Duas
semanas depois, no Salão Nobre do Palácio Anchieta, Casagrande anunciou
publicamente aquilo que todos já sabiam: seu candidato à sucessão seria
Ricardo.
Arnaldinho precisava reagir e o fez quatro
dias depois, no dia 22 de dezembro, em novo artigo publicado em A Gazeta, intitulado “Renovação com experiência: o caminho que os capixabas apontam”.
No texto, o prefeito reafirmou que seguia
vivo no páreo: “A decisão sobre quem vai dar continuidade aos bons governos dos
últimos 24 anos, de Paulo Hartung e de Renato Casagrande, será do povo, no dia
4 de outubro”.
Fevereiro de 2026: o desfile com Pazolini
Aí veio
o Carnaval de Vitória, trazendo consigo um episódio que instantaneamente virou
capítulo obrigatório em qualquer almanaque da política do Espírito Santo no
século XXI: o “desfile eleitoral” de Arnaldinho com Lorenzo Pazolini (Republicanos),
principal opositor de Casagrande e adversário eleitoral do Palácio Anchieta.
No fatídico
6 de fevereiro, para perplexidade geral – sobretudo de Casagrande, cujo
semblante não escondeu a mal contida ira interior –, Arnaldinho entrou com Pazolini
no meio do Sambão do Povo, para o ato solene inaugural do desfile das escolas
de samba: a entrega simbólica da chave da cidade para o Rei Momo.
Ao lado
das respectivas esposas, os dois prefeitos passaram a madrugada de folia
inteira juntos, literalmente atravessando de ponta a ponto a avenida, com os
punhos erguidos, entre os desfiles das escolas do grupo especial. Capitalizaram
ao máximo o momento.
Foi um
tapa na cara do então governador. Mas o desfile foi além do Sambão.
Pelas
semanas seguintes, até o início de março, Arnaldinho participou de uma série de
atividades pré-eleitorais com Pazolini e, ainda, com Evair de Melo, um dos
maiores adversários do governo Casagrande, incluindo bloco de carnaval em Castelo,
trio elétrico em Piúma, visita de um ao gabinete do outro, oração a dois no
Convento da Penha.
É dessa
subida ao Convento a foto de Arnaldinho dando as mãos a Pazolini e Evair
(acima).
Tudo
isso em meio a uma série de posts em collab.
20 de fevereiro: a confirmação
da guinada
Em nova
entrevista a este colunista no auge do “namoro” com Pazolini, Arnaldinho foi
enfático no sentido de que ambos dividiriam o palanque na eleição estadual.
Transcrevo
abaixo algumas linhas emblemáticas. Os grifos são meus:
Durante o processo eleitoral,
vocês dois estarão do mesmo lado?
Sim. Nós estaremos do mesmo
lado. De
forma muito madura, nós sentamos, conversamos e alinhamos que temos as mesmas características, de
sermos prefeitos inovadores, que fazem entregas que o povo deseja e que o
Espírito Santo precisa disso: inovação, sustentabilidade e respeito ao nosso
povo. E é isso que nós estamos trabalhando juntos, para que a gente possa
construir o novo Espírito Santo.
Independentemente de posições,
vocês estarão no mesmo palanque e na mesma coligação?
Com toda a certeza. [...]
Isso significa dizer, prefeito,
que o senhor não apoiará a candidatura do vice-governador Ricardo Ferraço ao
Governo do Estado? O senhor já pode descartar essa possibilidade?
Eu nunca declarei que estaria
com ele.
Respeito o posicionamento dele, assim como respeito todos os posicionamentos,
porque é da democracia. Mas eu tenho um posicionamento também, e não é
escondido de ninguém. Meu posicionamento, inclusive, foi colocado pelo
governador Renato Casagrande, que me lançou também candidato ao Governo do Estado. Ele fez a escolha dele, eu fiz
a minha escolha de tocar o meu projeto para eu ser pré-candidato e candidato ao
Governo do Estado.
O PSDB estará com o
Republicanos?
Olha, tudo indica que sim, mas nós estamos
dialogando para que isso aconteça.
E vocês dois, tanto o senhor
como o prefeito Lorenzo Pazolini, vão renunciar em abril?
Eu não
posso falar pelo Pazolini, posso falar por mim: tudo indica que o dia 4 de abril seja o meu último dia na condição de
prefeito de Vila Velha.
Se ele também renunciar, só um
dos dois, em se mantendo esse projeto conjunto, poderá ser candidato a
governador. Nesse caso, o senhor acredita que o prefeito de Vitória possa
desistir, abrir mão em favor do senhor para apoiá-lo ao Governo do Estado?
Olha, o
que eu posso te afirmar é que nós estamos conversando muito, dialogando muito,
para que a gente possa chegar num consenso, para a gente construir esse
Espírito Santo que todo o povo deseja. Por
onde a gente anda, por onde a gente passa, a sociedade deseja renovação, mas
uma renovação já comprovada. Igual à
minha aqui em Vila Velha, com tantas entregas, da mesma forma que o Pazolini tem feito lá em Vitória. Ou seja, são
duas gestões vitoriosas, duas gestões de resultado, de entregas, de
planejamento, de organização. É o que o Estado deseja para dar continuidade a
esses últimos 24 anos de bom governo.
E qual será o critério de
escolha? Serão pesquisas de intenção de voto? É quem estiver melhor lá em
julho?
Não
dialogamos sobre critério, nem dialogamos o que cada um vai ser. Só temos a certeza de que nós estaremos
caminhando juntos para que o Estado se transforme nesse novo Espírito Santo
que a gente se vê debatendo com a sociedade.
Março de 2026: o recuo
Mas o
amor de carnaval durou um mês. As águas de março fecharam não só o verão como
as saídas para Arnaldinho.
De um
lado, ele não teria chance de se candidatar a governador se seguisse no
movimento de Pazolini, que jamais abriria mão a favor dele – até porque já
estava lá antes e, ao contrário de Arnaldinho, manteve-se na mesma posição.
Do
outro, seu cavalo de pau também implodiu qualquer esperança que ele ainda pudesse
alimentar de fazer Casagrande voltar atrás e trocar Ricardo por ele na cabeça
da chapa governista. Se voltasse para o lado do governo, teria de aceitar voltar
“pelado” – sem poder apresentar condições, muito menos fazer exigências.
Por
pouco mais de um mês, Arnaldinho sentiu na pele uma amostra do que é ser “um
prefeito de oposição”: a mão amiga que por mais de cinco anos sustentara a sua
bem-sucedida gestão de repente se retirara da cidade.
Politicamente
isolado, com o PSDB desmantelado em tempo recorde no Espírito Santo, sem
conseguir nem mesmo montar a chapa de federais “encomendada” por Aécio Neves e
profundamente pressionado pelo governo nos bastidores, Arnaldinho viu-se sem escapatória.
Havia, é
claro, o plano C, que era bancar a própria candidatura pelo PSDB, mas seria um
projeto kamikaze, dificilmente avalizado pela direção nacional.
Já
afastado de Pazolini, o prefeito começou a agitar o lenço branco para o governo
em meados de março. No fim do mês, anunciou a decisão de permanecer no cargo,
não disputar nada e concluir seu segundo mandato em Vila Velha.
Em
meados de abril, primeiro mês do governo de Ricardo, acelerou-se sua
reaproximação com Casagrande e com o novo governador. Os três logo voltaram a
ser vistos em solenidades públicas em Vila Velha. Ah, a mão amiga do governo
também retornou ao município.
No dia 29
de maio, Arnaldinho me concedeu a derradeira entrevista deste ciclo. Transcrevo
(com grifo meu):
O senhor está apoiando a
reeleição do governador em outubro?
Sim!
Estou apoiando a reeleição de Ricardo. E estou apoiando Renato para o Senado.
Acredito que é o melhor para o Espírito Santo.
No ano passado, o senhor chegou
a defender publicamente algumas vezes, inclusive em artigos publicados na
imprensa, a “mudança de um ciclo geracional” na política capixaba. Argumentou
que os capixabas ansiavam por isso. O senhor reviu essa posição?
Sim. Acredito que a gente, às
vezes no calor, às vezes numa decisão individual, deseja alcançar objetivos que
se tem na vida.
Eu ainda tenho o objetivo de ser governador. Eu só adiei o momento para me
colocar à disposição do povo capixaba. Mas acredito que a continuidade do que
já está dando certo é muito importante para o estado do Espírito santo, que vem
sendo um dos melhores estados da federação.
O senhor tocou num ponto fundamental.
Adiou para quando? 2030 é logo ali…
Eu
adiei… Não sei se é 2030, não sei se é 2034. Um dia. Para quem está na
política, para quem gosta de servir o povo, a gente se coloca à disposição. Não
sei quando vai ser, mas é um desejo que tenho no meu coração. Quem sabe um dia
eu possa realizar?”
E com o ex-prefeito Pazolini, o
senhor mantém algum diálogo político?
Eu não
tenho diálogo político, mas o respeito muito. Acho que qualquer pessoa que
coloca o nome à disposição da nossa sociedade merece respeito.
Conclusões
Tudo
considerado, o maior risco para Arnaldinho, nessa circum-navegação, é o de sair
com a pecha de político inconsistente, de palavra pouco confiável… Aquele sobre
quem, nas articulações com os demais, pode passar a pairar um “será?” ou um
“senão”…
Na política, como dizem, ninguém assina contrato; a palavra do sujeito é tudo.
E todo acordo, em essência, deve ser à prova de eventuais mudanças de
conjuntura.
Ora, com tantos “reposicionamentos” em espaços de tempo tão curtos, o prefeito,
sem o perceber, pode ter forjado para si mesmo a imagem de um líder cujo
discurso transmite pouca segurança ao mercado político, cuja palavra se dobra
com o vento, conforme se alterem as circunstâncias.
Perseguir sonhos e aspirações, sem permitir que terceiros lhe imponham limites,
é mais que legítimo… Ninguém poderia negar esse direito a Arnaldinho. Mas as
mudanças de rota neste caso foram tão extremas que o grande risco para ele é o
de, na ânsia de crescer, ter saído desta viagem menor do que entrou… ao menos
em termos de confiabilidade política.
Eis um
ponto que merece a atenção do prefeito de Vila Velha, em sua promissora trajetória
na vida pública.
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