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Vitor Vogas

Como Colatina “salvou” a candidatura de Sérgio Meneguelli

O que salvou Meneguelli, na verdade, foi a conjuntura política muito específica de Colatina, cidade governada por ele por um mandato e por Renzo desde 2025

Publicado em 07 de Agosto de 2026 às 06:00

Públicado em 

07 ago 2026 às 06:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Sérgio Meneguelli será candidato a senador
Sérgio Meneguelli será candidato a senador Reprodução Facebook

“Minha mãe me ensinou que palavra de homem não precisa ser assinada. É no fio do bigode”, disse Renzo Vasconcelos, na noite de quarta-feira (5), ao anunciar que o PSD ficaria neutro na eleição para governador e bancaria a candidatura de Sérgio Meneguelli a senador. Ao optar por esse caminho, Renzo de fato cumpriu sua palavra com Meneguelli. Mas isso não muda dois fatos.


Fato 1


Até a manhã de quarta-feira, sob a condução de Renzo, o PSD caminhava firmemente para outra solução: entrar na coligação do Republicanos, apoiar Lorenzo Pazolini para governador e emplacar Lívia Vasconcelos (esposa de Renzo) como candidata a vice de Pazolini; neste caso, Meneguelli não teria sido candidato a senador, por falta de espaço para ele nessa coligação. A candidatura dele esteve, verdadeiramente, por um fio.


Sob condição de anonimato, fontes dos dois partidos vão além, incluindo articuladores políticos do PSD e do Republicanos diretamente envolvidos nas tratativas. Segundo tais fontes, o acordo nesse sentido chegou a ser fechado na véspera, em reunião do casal Vasconcelos com Pazolini e Erick Musso (sem a presença de Meneguelli).


Fato 2


Na tarde de quarta-feira, houve uma grande reviravolta nos bastidores, daquelas que só a política é capaz de produzir. O fio do novelo se desenrolou. Nas derradeiras horas antes da convenção do PSD, o acordo de boca feito na véspera foi desfeito.


Desfeito em favor de Meneguelli, cuja candidatura prevaleceu, e em desfavor de Lívia Vasconcelos, que queria ser candidata a vice, mas, no fim das contas, não será.


O protagonista do “desfazimento” foi Renzo.


E por que, então, desfez-se o acordo com o Republicanos?


Em uma palavra, Colatina.


É por isso que, no título deste artigo, dissemos que foi Colatina quem salvou a candidatura de Meneguelli. Não nos referimos literalmente ao município, tampouco ao povo colatinense.


O que salvou Meneguelli, na verdade, foi a conjuntura política muito específica de Colatina, cidade governada por ele por um mandato, de 2017 a 2020, e por Renzo desde 2025.


Para ser ainda mais específico, o que o salvou foi o tabuleiro eleitoral do próximo pleito municipal, em 2028, quando Renzo buscará a reeleição.


“Sim, o acordo estava fechado. O que houve foi uma reviravolta de última hora promovida pelas circunstâncias locais bairristas de Colatina”, atesta um operador de bastidores do PSD que esteve em Vitória nos últimos dias especialmente para participar das tratativas finais.


A mesma fonte se permite fazer uma piada: “Eu não fazia ideia, mas aparentemente é Colatina que é a verdadeira ‘capital secreta do mundo’, não Cachoeiro de Itapemirim!”


Isso devido à importância que o cenário paroquial colatinense desempenhou no episódio em questão, a ponto de influenciar decisivamente a eleição para o Senado e até, indiretamente, a eleição para o Palácio Anchieta. 

Renzo estava no fio da navalha

Em Colatina, hoje, Meneguelli é o mais importante aliado do prefeito Renzo Vasconcelos. Se o amor é proporcional ao ódio, uma aliança pode ser proporcional a um desejo de vingança.


Dependendo do desfecho da convenção do PSD, o hoje maior aliado de Renzo poderia se voltar contra ele e se converter em seu maior pesadelo...


Se tivesse sido rifado pelo PSD (como foi pelo Republicanos em 2022), Meneguelli poderia vir candidato a prefeito de Colatina, contra Renzo, daqui a dois anos. E viria espumando de raiva para o derrotar nas urnas.


Não sabemos se Meneguelli chegou, naquelas horas derradeiras, a fazer algum tipo de ameaça a Renzo, explícita ou velada, nessa direção. Na verdade, talvez ninguém jamais saberá o que exatamente se passou entre eles naquelas horas decisivas da tarde de quarta-feira.


Mas a mera hipótese de Meneguelli se candidatar contra ele em 2028 foi sempre uma espada pairando sobre a cabeça de Renzo, desde o início deste processo. Todos sabiam disso.


No último pleito municipal, em 2024, Meneguelli foi mais que decisivo para o triunfo eleitoral de Renzo sobre o então prefeito de Colatina, Guerino Balestrassi. Com sua entrada em carne e osso na campanha de Renzo na última semana, Meneguelli ajudou a constituir a vitória apertadíssima, numa das chegadas mais acirradas entre todos os municípios capixabas. E Guerino tinha o apoio de Casagrande!


Agora, se ferido e traído por Renzo, Meneguelli poderia ser igualmente determinante para ele em 2028, mas dessa vez para seu revés, do mesmo modo que o foi para seu triunfo em 2024. Renzo sempre teve plena consciência disso. E não quis pagar para ver.


Aliás, não só tirou essa espada da cabeça como tratou de amarrar bem com Meneguelli as condições mais favoráveis possíveis para ele mesmo em 2028. Ao garantir a Meneguelli a legenda para disputar o Senado, Renzo garantiu de antemão, para si mesmo, a reedição do apoio do seu maior cabo eleitoral.


Ninguém verbalizou, nesses termos, essa combinação entre os dois... Mas, durante a convenção, o trato ficou explícito.


A tinta da ata ainda nem tinha secado que lá mesmo, no local da convenção, Renzo gravou com Meneguelli um vídeo e postou em suas redes sociais. Nele, após o prefeito anunciar a candidatura de Meneguelli ao Senado, este declara:


“Foi a primeira vez que o presidente do partido que eu participei agiu com honradez, com dignidade, mostrando que tem coragem e que não é moleque! Então, Renzo já é inclusive o meu candidato à reeleição a prefeito de Colatina.”


Ao que Renzo responde: “Amém!”

Além disso, na entrevista coletiva, respondendo a uma pergunta da colega Letícia Gonçalves, Meneguelli descartou concorrer de novo a prefeito em 2028:


"Descarto. Não é meu projeto de vida. Eu não curto reeleição, já tive duas oportunidades de voltar à prefeitura e não fui. Se eu voltasse, seria uma reeleição disfarçada. Quem tem que disputar a reeleição é Renzo Vasconcelos. Eu não quis governar por oito anos por uma questão pessoal, mas Renzo Vasconcelos tem meu apoio desde agora. Não vou ser candidato em 2028.”

PSD: Partido do Sol Descendente

O PSD, como se nota, virou no Espírito Santo o Partido do Sol Descendente. Refiro-me ao famoso pôr do sol, cartão postal da Princesinha do Norte.


Neste estado, o partido, tão grande nacionalmente, hoje está atrelado e subordinado às circunstâncias muito particulares da política colatinense.


Segundo nossa fonte de alta patente do PSD, o próprio Gilberto Kassab, presidente nacional da sigla (para quem, convenhamos, o ES não tem lá tanta importância), meio que lavou as mãos na quarta-feira, antes da convenção.


“O Kassab considerou que não haveria razão para promover uma Terceira Guerra Mundial para prejudicar quem quer que seja. E, infelizmente, foi esse o desfecho. Mas não era o que estava construído até terça à noite.”

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Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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