Rodney Miranda, quem diria, está de volta ao cenário político capixaba, e num papel completamente inesperado: o de candidato a senador pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB).
No último dia 24, Rodney assumiu a presidência do partido no
Espírito Santo, à frente de um órgão provisório. Na última terça-feira (4),
teve o nome ratificado, em convenção virtual do diretório comandado por ele
próprio, para concorrer ao Senado Federal.
A convenção em formato virtual – permitido, mas incomum – se
explica por um motivo simples: embora seja candidato no Espírito Santo, Rodney
ainda mora em Goiânia, para onde se mudou em 2019, quando assumiu o cargo de
secretário estadual de Segurança Pública no governo de Ronaldo Caiado em Goiás.
Segundo o ex-prefeito de Vila Velha, agora ele está “em
transição gradual” para voltar a viver, com a esposa e o filho mais novo, na
cidade que governou por um mandato (2009-2012).
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Em meados deste mês, eles devem voltar a se instalar no
apartamento do casal em Itaparica (hoje alugado). Sua candidatura ao Senado, informa
ele, deve ser lançada para valer no fim de agosto, quando “tudo já estiver
estruturado”. O período oficial de campanha começa no dia 16.
O PRTB é um partido nanico, mais conhecido por ter sido
presidido por Levy Fidelix (tipo folclórico que chegou a concorrer à
Presidência, falecido em 2021) e por ter sido a sigla que abrigou, em 2018, a
candidatura do general Hamilton Mourão à vice-presidência da República.
Também foi a legenda de Pablo Marçal, hoje no União Brasil e
inelegível por oito anos, na eleição para prefeito de São Paulo em 2024.
Em conversa com a coluna (por telefone, falando de Goiânia),
Rodney, 61 anos, revela que essa nova empreitada eleitoral não estava
exatamente nos seus planos. Ele já se considerava aposentado da vida pública,
dedicando-se exclusivamente à sua empresa de consultoria privada na área de
segurança, sediada no Espírito Santo.
Mas o destino fez o seu caminho se cruzar com o do PRTB...
mais precisamente, com o de um personagem fundamental nesta história, dois anos
atrás. Foi quando ele conheceu Leonardo Alves de Araújo, mais conhecido no meio
político como Leonardo Avalanche – agora candidato à Presidência da República
pelo PRTB. Ele é de Goiânia.
A morte de Levy Fidelix, em 2021, desencadeou uma guerra
interna pelo comando nacional do PRTB. Rodney conta que, há cerca de dois anos,
Avalanche ia assumir a presidência nacional da sigla, mas foi vítima do então
diretor jurídico, que teria fraudado a ata da convenção nacional e registrado o
novo diretório no TSE com ele mesmo na presidência.
Pare encurtar a história, isso deflagrou um inquérito e uma
ação na Justiça Eleitoral. Avalanche aproximou-se de Rodney, delegado de
carreira aposentado da Polícia Federal, que o acompanhou e assessorou durante
todo o processo. “Quando tem bandido, procuram quem? Um delegado!”, diz o
ex-prefeito. Os dois ficaram amigos.
Neste ano, finalmente, com uma liminar favorável, o TSE
conduziu Avalanche à presidência do PRTB no país. Então, de acordo com Rodney, além
de um cargo na Comissão Executiva Nacional, o amigo lhe ofereceu o comando do
partido em um estado. Ele escolheu o Espírito Santo.
“Ele me ofereceu o diretório que eu quisesse. E, como eu já estava querendo voltar para o Espírito Santo, escolhi assumir o diretório do Espírito Santo.”
Segundo Rodney, sua esposa passa há dois anos por um
tratamento de saúde, já está muito melhor, mas isso também fez com que ele já
quisesse mesmo voltar a respirar os ares capixabas. Então tudo “casou”.
A candidatura de Rodney ao Senado (realisticamente, com
chances bem remotas de vitória) não deixa de ser uma maneira de levar o nome do
PRTB e de Avalanche, ajudando o partido a se reorganizar e crescer no Espírito
Santo.
Rodney também tem passado muito tempo em Brasília, pois
Avalanche lhe pediu para ajudá-lo a reestruturar o PRTB nacionalmente.
“Meu plano é fazer o lançamento da minha candidatura entre
26 e 28 de agosto. Então estarei com tudo estruturado e com a cabeça 100% no Espírito
Santo.”
No momento, não está.
Candidatura independente
A candidatura do ex-prefeito ao Senado será independente. O
PRTB lançará uma chapa majoritária tendo apenas ele como candidato. Os dois
suplentes ainda não foram definidos. O partido não terá candidatos a deputado
estadual nem a federal no Espírito Santo.
“Você pode me perguntar: por que não decidi ser candidato a
deputado federal? Por conta da inércia do TSE, a gente não teve tempo de montar
a chapa de federais. Eu seria o único candidato a federal da chapa. Então, eu só
tinha duas opções, na majoritária: governador ou senador. Escolhi ser candidato
a senador”, explica Rodney, pragmático.
Na disputa pelo Palácio Anchieta, o PRTB optou pela neutralidade:
não apoiará ninguém. “Me dou muito bem com os três principais candidatos:
Ricardo Ferraço, Lorenzo Pazolini e Helder Salomão.”
Já na corrida ao Palácio do Planalto, Rodney apoiará,
naturalmente, seu líder e amigo, Leonardo Avalanche (candidato sem chances de
vitória).
Ele diz não nutrir simpatia nem pelo presidente Lula (PT)
nem pelo senador Flávio Bolsonaro (PL).
“Não vou apoiar o atual presidente. Mas também não sou fã de
jeito nenhum do candidato de oposição. Em eventual segundo turno entre eles, aí
é sentar e avaliar...”
Em 2022, ele apoiou Jair Bolsonaro. Chegou a postar no Facebook:
“Acredito que ele tem feito um bom trabalho em defesa da população de bem.”
Sobre Ronaldo Caiado, seu chefe no Governo de Goiás por quase
quatro anos, ele diz que se dá bem com o ex-governador, mas que não está com o
agora candidato à Presidência pelo PSD. “Ele escolheu um posicionamento com o
qual não concordo.”
Em sua campanha ao Senado, Rodney diz que pretende enfocar
três pautas. A primeira, como era natural, é a da segurança pública.
“Acho que posso contribuir para elevar o debate eleitoral no
Espírito Santo. No meu atual momento de vida, seria importante minha presença
no Senado, porque toda a legislação penal e processual é de competência
exclusiva do Congresso Nacional.”
A segunda é o agronegócio, setor com o qual ele diz ter
desenvolvido uma boa interlocução, em seus cerca de oito anos em Goiás, um dos
motores da agropecuária no país.
A terceira, trocando em miúdos, é a reforma do Poder
Judiciário.
“Tem muitos temas aí que estão soltos e que estão sendo
tratados de modo raso. O Senado é a Casa que tem a prerrogativa de enfrentar,
fiscalizar e controlar as atividades dos tribunais superiores, para não
extrapolarem seus poderes, como estamos vendo toda hora. Mas essa discussão tem
sido muito rasa e muito entrelaçada com interesses pessoais”, critica o
ex-prefeito.
“Eu me sinto em condições e preparado. No meu momento de
vida e com minha trajetória, estou pronto para fazer, se for o caso, o enfrentamento,
mas também para dialogar e defender os interesses do Espírito Santo”, conclui.
Segundo ele, sua candidatura, desta vez, nada tem a ver com o ex-governador Paulo Hartung (PSD), de quem ele foi aliado e colaborador por muitos anos. “Há muito tempo não falo com ele.”
História
Natural de Brasília, Rodney Miranda é formado em Administração
e Direito. Também tem duas pós-graduações. É delegado aposentado da Polícia Federal.
Chegou ao Espírito Santo na época da missão especial contra o
crime organizado, em 2002. De 2003 a 2005, primeiro governo de Hartung, foi
secretário estadual de Segurança Pública. Deixou a pasta por ocasião do
escândalo das interceptações telefônicas na Rede Gazeta.
Em 2006, foi secretário de Segurança Pública de Pernambuco,
no curto governo de Mendonça Filho.
Nos três anos seguintes, voltou a assumir a mesma pasta no
Espírito Santo, durante o segundo governo PH.
Como chefe da Sesp, Rodney chamava a atenção pelo hábito de
acompanhar de perto operações policiais nas ruas, levando uma pistola na
cintura e vestindo colete à prova de balas.
Em 2010, com o apoio de Hartung, foi candidato a deputado
estadual, elegendo-se como o mais votado do Espírito Santo naquele pleito, pelo
Democratas (partido que se fundiria ao PSL para originar o União Brasil, em
2021).
Dois anos depois, ainda no DEM e com o apoio de Hartung, foi eleito prefeito de Vila Velha.
Passados quatro anos, não conseguiu renovar o
mandato. Para ser mais preciso, não chegou ao 2º turno, disputado por Neucimar
Fraga e Max Filho e vencido pelo segundo.
Rodney também foi presidente estadual do DEM, por muitos
anos.
Com a derrota nas urnas em 2016, tornou-se secretário estadual
de Desenvolvimento Urbano, na metade final do último governo PH.
Em 2018, foi candidato a deputado federal pelo Republicanos,
ficando na 1ª suplência.
No fim daquele ano, a convite de Ronaldo Caiado, participou
da equipe de transição do governador eleito em Goiás e, logo no início do
governo, assumiu a secretaria de Segurança Pública. Exerceu o cargo por quase todo
o primeiro mandato de Caiado.
Em 2022, desincompatibilizou-se e foi candidato a deputado
federal, de novo pelo Republicanos, mas dessa vez em Goiás... No material de
campanha, usava fardamento militar. Só alcançou 4.869 votos.
Ele diz ter desistido antes do fim da campanha, pois o
partido não teria cumprido os seus compromissos com ele.
Rodney, então, partiu para a iniciativa privada, tocando sua
empresa de consultoria. Ele é o responsável, por exemplo, pelo programa de
segurança do campo da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
“Eu tinha desistido da vida política...”, conta ele.
Até que o destino quis que seu caminho se cruzasse com o de
Leonardo Avalanche. Embora uma avalanche de votos seja improvável nos dois
casos...
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