No dia 25 de fevereiro, o senador Flávio Bolsonaro,
candidato do Partido Liberal (PL) à Presidência, passou o dia em uma série de
reuniões com dirigentes nacionais da sigla, na sede do PL, em Brasília. Em uma
sala, deixou um documento, vazado e publicado na imprensa. O documento revelava
em que pé estavam, naquele momento, as estratégias do partido para a construção
dos palanques eleitorais em todos os estados brasileiros, incluindo o Espírito
Santo.
Intitulado “Situação nos Estados”, o papel continha uma série
de anotações feitas à mão pelo primogênito de Jair Bolsonaro, após ter discutido
estado por estado com líderes locais da legenda. Além das estratégias, o
registro expunha impasses regionais e a avaliação sobre alguns pré-candidatos.
Sem poder negar seu conteúdo, Flávio confirmou a veracidade
das anotações. Mas, para botar panos quentes, afirmou que os registros não
expressavam necessariamente sua posição pessoal, refletindo “sugestões”
recebidas de senadores e deputados federais do PL ao longo daquele dia –
incluindo o senador Magno Malta, presidente do partido no Espírito Santo. O manuscrito
gerou grande desgaste com aliados.
Na seção do documento dedicada ao Espírito Santo, como
candidato ao governo, o nome anotado por Flávio era o do prefeito de Vitória:
“Lorenzo Pazolini (Rep)”.
Já no tópico “Senado”, dois nomes foram listados por ele:
Evair de Melo (hoje no Republicanos) e Maguinha Malta (PL).
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À mão, Flávio fez uma rasura, corrigindo o partido atribuído
a Evair: riscou “(PL)” e mudou para “(PP)”, legenda de Evair àquela altura. Do
nome do deputado, puxou uma seta e escreveu “JB” (vinculando Evair diretamente
ao pai, Jair Bolsonaro). No fim de março, Evair trocou o PP pelo Republicanos.
Flávio ainda registrou: “Conversa c/ Magno”. Não ficou claro se aquele esboço de chapa majoritária fora fruto de uma conversa com Magno, ou se Flávio fizera constar que precisava conversar com o senador para buscar viabilizar aquele esboço.
À época, por meio de sua assessoria, Magno apressou-se em
desmentir qualquer definição de apoio ou candidatura (exceto a da sua filha
Maguinha para o Senado, da qual ele jamais abriu mão). “No que diz respeito ao
Espírito Santo, é importante esclarecer que não procede o conteúdo divulgado em
listas extraoficiais que circulam na internet.”
Em
todo caso, as anotações vazadas permitiram, já àquela altura, duas constatações.
Em
primeiro lugar, o pragmatismo de Flávio poderia levar PL ao palanque de
Pazolini, no lugar de abraçar a proposta, defendida vigorosamente por alguns
membros do partido no Espírito Santo, de lançar Magno Malta ou algum outro
quadro próprio ao Palácio Anchieta.
Em
segundo lugar, Evair gozava mesmo da preferência de Jair Bolsonaro para
disputar o Senado.
Fato
é que, após pouco mais de cinco meses, o rascunho de Flávio efetivamente se
concretizou nas eleições em solo capixaba.
Na
disputa majoritária, o PL se coligou com o Republicanos no Espírito Santo –
algo não realizado, por exemplo, na eleição presidencial. O partido dos
Bolsonaro abraçou e agora apoia oficialmente a candidatura de Pazolini ao
governo estadual.
Pazolini
inclusive ganhou declaração de apoio do próprio Flávio e declarou apoio a ele
para a Presidência, pessoalmente, durante um encontro do PL em Vitória, no dia
18 de julho.
Ao
mesmo tempo, os dois candidatos dessa chapa são, exatamente, Maguinha (pelo PL)
e Evair de Melo (pelo Republicanos).
Falta
só a definição do candidato a vice-governador ou vice-governadora de Pazolini,
que deverá vir de uma das duas siglas. Mas a posição de vice não constava nas
anotações de Flávio.
Só para não perder o trocadilho...
Maguinha é uma
candidata extremamente “bíblica”. Em seus pronunciamentos, cita com frequência
Deus e personagens do livro sagrado dos cristãos.
Por sua vez, Evair tem
Eva até no nome. Como se sabe, trata-se da primeira personagem feminina da
Bíblia (e da criação divina, segundo o livro).
De certo modo, os
dois combinaram.
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