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Vitor Vogas

Por que a eleição para o Senado é especialmente importante desta vez?

Desta vez, uma disputa que não costuma despertar grande atenção das pessoas ganhou o centro dos holofotes e está sendo tratada como prioritária tanto pelo governo Lula (PT) como pela oposição

Publicado em 20 de Agosto de 2026 às 05:00

Públicado em 

20 ago 2026 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas

vvogas@redegazeta.com.br

Plenário do Senado Federal
Plenário do Senado Federal Carlos Moura/ Agência Senado

Realizada a cada quatro anos, a eleição para o Senado Federal é sempre importantíssima. Historicamente, porém, essa disputa específica costuma atrair dos cidadãos brasileiros uma atenção muito aquém da sua importância, até porque ocorre simultaneamente a outras quatro disputas eleitorais pelas quais fica ofuscada: para a Presidência da República, para os governos estaduais, para a Câmara dos Deputados e para as assembleias legislativas.


As duas primeiras, para presidente e governador, costumam concentrar as atenções do público. Já no caso da eleição de deputados estaduais e federais, os candidatos normalmente têm maior proximidade com os eleitores: é o vereador da cidade, o ex-prefeito do município etc. Assim, muita gente só deixa para se preocupar com o Senado ou se lembrar que também precisa votar para senador(es) nos últimos dias da campanha.


De acordo com pesquisa Quaest divulgada no último dia 10, 18% dos entrevistados dizem decidir seu(s) voto(s) para o Senado na última semana, até a véspera do 1º turno. Outros 14% vão além, admitindo que deixam para decidir no dia da votação. No total, 32% chegam aos dias finais da campanha ainda sem saber em quem votar. Arredondando, um em cada três eleitores só toma a decisão sobre o Senado na última semana da corrida.


Desta vez, porém, aquilo que já é importante em “circunstâncias normais” ganhou ainda maior relevância. A eleição para o Senado está sendo tratada como prioritária tanto pelo governo Lula (PT) como pela oposição.


Isso porque, independentemente do resultado da eleição para o Palácio do Planalto, o Senado promete ser um campo de batalha, nos próximos anos, entre as forças políticas alinhadas ao atual presidente e aquelas concentradas em torno da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL).


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Em jogo, está a governabilidade do próximo presidente no Congresso Nacional, a estabilidade política e institucional da República e, de modo muito específico, a cassação (ou não) de mandatos de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) – particularmente, Alexandre de Moraes –, um tema que entrou em definitivo no debate político e eleitoral do país.


Seria algo inédito. Nunca, em 137 anos de República Federativa do Brasil, um ministro do Supremo sofreu impeachment.


Mas um ministro indicado ao Supremo pelo presidente da República não era recusado pelo Senado desde os anos 1890... E, no entanto, isso ocorreu com Jorge Messias, no último mês de abril, o que dá a dimensão da arena de guerra que já se tornou o Senado na atual conjuntura. E isso tende a se aprofundar nos anos por vir. 

O Senado Federal

O Parlamento brasileiro segue o sistema bicameral, ou seja, é dividido, na esfera federal, em duas Casas de Lei: a Câmara dos Deputados e o Senado da República.


Formada por um total de 513 deputados, a Câmara é a “Casa do Povo”, pois representa a população brasileira. Por isso, as cadeiras dos estados são distribuídas de maneira proporcional ao tamanho da respectiva população.


Com 2% dos habitantes do país, o Espírito Santo, por exemplo, tem direito a 10 assentos. Com população muito maior, o estado de São Paulo tem uma bancada de 70 deputados (o número máximo). As menores bancadas têm só oito.


Já o Senado Federal, também chamado de Câmara Alta ou de Casa Revisora, representa as unidades da federação, de maneira igualitária. Independentemente do tamanho, cada uma das 27 unidades (os 26 estados, mais o Distrito Federal) tem a mesma representação: três senadores da República, cada qual com mandato de oito anos, totalizando 81 parlamentares (27 x 3).


Assim como os governadores e o presidente da República, os senadores são eleitos segundo o princípio majoritário: vence quem recebe mais votos. Cada um é eleito com dois suplentes.


Está na Constituição Federal: “A representação de cada Estado e do Distrito Federal será renovada de quatro em quatro anos, alternadamente, por um e dois terços”. Isso significa que, a cada quatro anos, os eleitores vão às urnas para escolher senadores. Se na eleição deste ano cada unidade elege dois, na próxima, daqui a quatro anos, cada unidade elegerá só um; na seguinte, outros dois, e assim sucessivamente.


No caso concreto, na eleição deste ano, cada unidade elegerá dois senadores – renovação de dois terços (2/3) do Senado. Por isso, das 81 cadeiras, 54 estão em disputa (27 x 2). Os outros 27 senadores, eleitos em 2022, ainda têm mais quatro anos de mandato. Pela mesma razão, em seu encontro com as urnas, no dia 4 de outubro, cada eleitor terá o direito de votar em até dois candidatos a senador.


Uma renovação de dois terços das cadeiras é uma chance muito rara, pois só ocorre a cada oito anos. Isso vale para os dois lados políticos que polarizam a disputa nacional. Mais ainda se considerarmos a atual conjuntura nacional (com fortíssima pressão sobre o STF) e as “competências privativas” do Senado Federal, isto é, os poderes que a Constituição Federal delega exclusivamente aos senadores da República – em especial, neste contexto, o de processar e cassar ministros do STF por crime de responsabilidade.


Conforme o texto da Carta Magna de 1988 (art. 52), somente a Câmara Alta pode processar e julgar, nos crimes de responsabilidade, os ministros do STF, os membros do Conselho Nacional de Justiça e do Conselho Nacional do Ministério Público, o procurador-geral da República e o advogado-geral da União.


Nesses casos, dispõe o mesmo artigo, a condenação “somente será proferida por dois terços dos votos do Senado Federal, à perda do cargo, com inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública, sem prejuízo das demais sanções judiciais cabíveis”.


Em outras palavras, para um ministro do STF ser cassado, são necessários os votos de, pelo menos, 54 dos 81 senadores (2/3).


Esse é o “número mágico” perseguido, nesta eleição, pelos dois lados envolvidos na disputa. Cada um quer atingir a marca de 54 senadores na Casa durante o próximo mandato, no quadriênio 2027-2030.


Isso pensando no caso hipotético de processo de impeachment aberto contra um integrante do Supremo.


Mas, se tratarmos de “controle da Casa”, é menor o número necessário para se garantir a maioria simples e, por conseguinte, a aprovação ou derrubada de qualquer projeto de lei: no mínimo, 41 senadores.


Esse também é o número mágico para se ganhar a primeira grande batalha a ser travada na próxima legislatura, em fevereiro do ano que vem: a eleição da presidência do Senado. O presidente, afinal, terá o poder de travar ou fazer deslanchar qualquer eventual processo de impeachment contra ministro do STF.


O atual, Davi Alcolumbre (União-AP), recém-reconciliado com Lula, já declarou que a Casa “não é órgão de correção do STF” e que abrir um processo de impeachment de um ministro da Corte seria criar “mais um” problema para o Brasil. O poderoso senador do Centrão deverá ter a reeleição apoiada por Lula, caso este renove o mandato em outubro.


Nesse contexto, enfim, qualquer diferença que se possa produzir na correlação de forças da Casa é mais que estratégico tanto para lulistas como para bolsonaristas.  

Lula x Bolsonaro: a disputa pelo Senado

Por isso, os dois lados na disputa lançaram e estão apoiando dezenas de candidatos nas 27 unidades da federação, visando aos dois mesmos objetivos.


Para Lula, o objetivo é impedir que a direita consolide uma maioria de 41 senadores, o que daria a seus adversários o favoritismo para ocupar a presidência do Senado em 2027, dificultando sua governabilidade em um eventual novo mandato.

 

Além disso, Lula já expressou preocupação com uma investida bolsonarista para pedir o impeachment de ministros do STF. Em 2025, o presidente destacou a importância de ter maioria no Senado “senão vão ‘avacalhar’ o STF”.

 

Pelo lado de Flávio, a meta é ampliar o número de assentos da direita bolsonarista e fortalecer a postura de enfrentamento ao STF.

A tropa do Flávio

Hoje, no Senado, o PL tem nove senadores eleitos em 2022 e com mandato assegurado até janeiro de 2031, incluindo Magno Malta, um dos três atuais representantes do Espírito Santo.


Os outros oito são Astronauta Marcos Pontes (SP), Efraim Filho (PB, eleito pelo União), Jaime Bagatoli (RO), Jorge Seif (SC) – licenciado do mandato, exercido temporariamente pelo 1º suplente, Hermes Klann (PL) –, Rogério Marinho (RN), Wellington Fagundes (MT), Wilder Morais (GO) e Sergio Moro (PR, eleito pelo União).


Também com mandato garantido até 2031, há outros bolsonaristas de marca maior, como os senadores Cleitinho (Rep-MG), Damares Alves (Rep-DF), Hamilton Mourão (Rep-RS) e Tereza Cristina (PP-MS).


Alguns deles são candidatos ao governo em seus estados, como Moro no Paraná e Cleitinho em Minas Gerais.


O PL, assim, parte com uma boa base, numericamente superior à do PT. Mas, para chegar aos almejados 54, o bolsonarismo precisará eleger dezenas de senadores país afora.


Exatamente com esse intuito, o PL lançou o incrível número de 33 candidatos a senador. O partido de Jair e Flávio Bolsonaro só não tem candidato próprio ao cargo em dois estados: Amapá e Alagoas.


Em oito deles, a sigla lançou dois candidatos ao Senado (o máximo permitido), com o objetivo de ocupar as duas vagas abertas. Um exemplo é o Distrito Federal, onde o PL concorre ao mesmo tempo com Bia Kicis e Michelle Bolsonaro, que recentemente se reaproximou do enteado, após atritos públicos entre madrasta e enteado.


Outro exemplo é Santa Catarina, onde a legenda disputa duplamente com Carol de Toni e Carlos Bolsonaro, irmão mais novo de Flávio. Os dois lideram as pesquisas num dos estados mais bolsonaristas do país. O segundo filho mais velho de Jair Bolsonaro renunciou ao mandato de vereador do Rio de Janeiro em dezembro de 2025 e transferiu seu domicílio eleitoral para Santa Catarina.


Além dos candidatos próprios, o PL ainda apoia 13 candidatos ao Senado de outras seis siglas aliada nos estados: 3 do Republicanos, 3 do Podemos, 2 do Novo, 2 do PP, 2 do União e 1 do PSD.


No total, o bolsonarismo está representado por 46 candidatos ao Senado país afora (de 54 possíveis).


No Espírito Santo, o PL lançou Maguinha Malta, filha de Magna Malta, e apoia o também bolsonarista Evair de Melo, do Republicanos, que integra a mesma coligação.

O time do Lula

Enquanto isso, sem ficar muito atrás, o PT está apoiando um total de 43 candidatos ao Senado, mas a estratégia é diferente. O partido de Lula lançou bem menos candidatos próprios que o PL: 19 petistas, em 17 unidades federadas. Só em dois estados, o partido tem dois candidatos próprios: Bahia (Jaques Wagner e Rui Costa) e Paraná (Gleisi Hoffmann e Dr. Rosinha).


Numa articulação liderada pessoalmente por Lula, para ampliar as próprias chances de aumentar sua base aliada e fazer frente ao bolsonarismo no Senado, o PT decidiu priorizar o apoio a candidatos de partidos aliados, pertencentes ao centro (MDB, PSD e União), à centro-esquerda (PDT e PSB) e à esquerda (PV, PSol e Rede).


Em alguns casos, o PT preferiu abrir mão de lançar candidato próprio, em prol de um aliado considerado mais competitivo no estado.


São 24 candidatos de outras siglas alinhados ao campo democrático progressista, os quais não darão guarida a nenhuma investida radical contra o STF e seus ministros. Seis deles são do MDB, 5 do PSB, 3 do PSD, 3 do PSol, 2 do PDT, 2 do União, 2 da Rede e 1 do PV.


Entre os aliados apoiados pelo PT, estão alguns pesos-pesados da política nacional, como Eduardo Braga (MDB-AM), Helder Barbalho (MDB-PA), Cid Gomes (PSB-CE), Carlos Fávaro (PSD-MT) e Renan Calheiros (MDB-AL).


Também está o ex-governador Renato Casagrande (PSB).


No Espírito Santo, além de priorizar a reeleição do senador Fabiano Contarato – eleito pela Rede em 2018 e filiado ao PT desde 2022 –, o partido de Lula decidiu oficialmente apoiar o retorno de Casagrande ao Senado, onde ele esteve de 2007 a 2010. Casagrande já declarou apoio a Lula para presidente.


No plano nacional, o PSB de Casagrande é um dos principais aliados do PT e, pela segunda eleição seguida, está representado na coligação de Lula com o vice-presidente Geraldo Alckmin. No Espírito Santo, porém, o apoio do PT a Casagrande se dá de maneira “informal”, já que PSB e PT não estão na mesma coligação estadual.


De toda forma, a Executiva Estadual do PT já comunicou sua decisão por meio de nota oficial, no último dia 10. E a orientação para a militância é dar o segundo voto em Casagrande, até porque a chapa do PT só lançou Contarato ao Senado.


A nota oficial deixa implícita a razão do apoio, que tem tudo a ver com a batalha relacionada ao STF e com a contenção dos avanços do bolsonarismo:


A manifestação do Partido dos Trabalhadores visa à construção de um Congresso responsável e comprometido com a democracia, com a soberania, com a justiça social e a promoção da cidadania”.


O caso mais emblemático da estratégia do PT é o de São Paulo, um dos dez estados onde o partido de Lula não tem candidato próprio ao Senado.


Apesar da importância do estado, maior colégio eleitoral do país e centro nervoso da disputa presidencial, o partido abdicou de lançar um petista para, em vez disso, apoiar duas ex-ministras de Lula muito conhecidas (ambas vindas de outros estados): Marina Silva (Rede), ex-ministra do Meio Ambiente, ex-senadora pelo Acre e atual deputada federal, já por São Paulo; e Simone Tebet (PSB), ex-ministra do Planejamento e ex-governadora do Mato Grosso do Sul.

A importância estratégica para Flávio

O filho 01 de Bolsonaro pretende formar ampla maioria no Senado para, se eleito, conseguir emplacar o próximo presidente da Casa.

 

Em 2023, a oposição lançou Rogério Marinho (PL-RN) ao cargo. Mas o bolsonarista perdeu para Alcolumbre por 49 votos a 32, e o PL ficou sem espaço na Mesa e nas comissões permanentes.

 

No último dia 11, após se reunir com os candidatos que apoia para o Senado, Flávio defendeu abertamente o impeachment do ministro Alexandre de Moraes – a quem chamou de “demônio”, em Vitória, no dia 18 de julho.

 

“O presidente da República indica o ministro do Supremo. O próximo indicará quatro. Quem tira é o Senado. Como a gente está aqui com os candidatos ao Senado, vocês são a favor de impeachment do Alexandre de Moraes?”, conclamou Flávio, na reunião. Em resposta, ouviu gritos de “sim” e “com certeza”.

 

Além da ofensiva contra o STF, Flávio destacou a importância de construir uma maioria ampla no Senado para aprovar mudanças na Constituição Federal que necessitam de quórum qualificado (3/5 dos votos, ou 49 dos 81 senadores), como a redução da maioridade penal, uma das suas propostas de campanha.


Na reunião, o presidenciável do PL disse aos candidatos aliados que, na próxima legislatura, o Senado será “ainda mais de centro-direita” e que precisará muito de todos eles “para mexer na Constituição Federal”. 

A importância estratégica para Lula

Lula passou o atual governo inteiro com muita dificuldade em formar maioria no Senado. O assombroso revés que foi a rejeição da indicação de Jorge Messias expôs a fragilidade da base governista e a dificuldade do Planalto em tocar a articulação política com o Congresso.


Essa dificuldade recorrente leva Lula a encarar a eleição de senadores como uma prioridade para 2026. Em vários discursos, o presidente já afirmou que a esquerda precisa ampliar sua bancada no Senado.

Em torno do presidente, o entendimento é que, se o Senado tiver uma maioria de direita no próximo mandato, crescerá sensivelmente a possibilidade de abertura de um eventual pedido de impeachment de um ministro do STF. Isso sem contar o aumento do custo político da governabilidade, ou seja, as negociações e concessões necessárias para o próximo governo conseguir a aprovação de suas pautas prioritárias.

 

No atual mandato, para conseguir fazer avançar suas pautas no Senado, o governo Lula ficou excessivamente dependente das articulações do presidente Davi Alcolumbre. Essa dependência excessiva custou caro ao Planalto.

 

Ao escolher o advogado-geral da União, Jorge Messias, para o STF na vaga de Luís Roberto Barroso, em detrimento do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), candidato de Alcolumbre, Lula sofreu uma derrota história (sem dúvida, a maior do atual mandato).

 

Enquanto durou o rompimento com Alcolumbre, encerrado nas últimas semanas, Lula viu pautas prioritárias de seu governo “esquecidas” no escaninho do presidente do Senado, como a PEC da segurança e a do fim da escala 6x1.

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Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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