Em 1986, no mundial do
México, Don Diego Armando Maradona “ganhou a Copa do Mundo sozinho”, conduzindo
a triunfante campanha da seleção argentina, com direito a gol de placa e gol de
mão contra a Inglaterra. Hoje, um xará e compatriota de Maradona é quem conduz
(mas certamente não sozinho) a campanha de Renato Casagrande (PSB) ao Senado no
Espírito Santo.
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O xará menos famoso del Pibe de Oro atende por Diego Brandy.
Discreto como convém a um marqueteiro, ele aparece pouquíssimo e evita chamar a
atenção para si. Mas atua intensamente nos bastidores das campanhas do ex-governador,
com quem agora reedita a parceria.
No último sábado (25),
durante a convenção estadual do PSB, Brandy observou de perto o evento (no qual
foram lançados o jingle e a
identidade visual da campanha), o discurso de Casagrande (no qual este lançou
sua plataforma ao Senado) e a entrevista coletiva na sequência. “Gostou do
jingle?”, quis saber do colunista, em breve troca de palavras, já medindo a
recepção das peças publicitárias.
Com 63 anos e formação
em Sociologia, o argentino é um antigo colaborador de Casagrande e do partido dele,
o PSB. Formando uma exitosa dupla com o jornalista pernambucano Victor
Carvalho, participou das três campanhas vitoriosas de Casagrande a governador
do Espírito Santo, em 2010, 2018 e 2022. Hoje, divide sua residência entre
Bueno Aires e Recife, onde fica sediada sua empresa de consultoria em
comunicação e estratégia política, chamada Farol.
Mas seu trabalho
com marketing político teve início por outro viés. Em 1988 (dois anos após o
milagre de Maradona no México), ele começou a trabalhar em campanhas eleitorais na Argentina como chefe de um
instituto de pesquisas.
No ano 2000, ainda como
sociólogo, passou a trabalhar em campanhas no Brasil, a convite de dois grandes
marqueteiros brasileiros que começaram a atuar na Argentina na década de 1990
(ambos baianos): Duda Mendonça e João Santana.
Em 2002, montou um instituto em Salvador e em 2006 transferiu sua base para Recife, acompanhando a ascendente trajetória política de Eduardo Campos. Formou uma sólida parceria com o então maior líder nacional do PSB, de quem chegou a ser considerado o “guru”.
Em 2006, Campos elegeu-se governador de Pernambuco. Quatro anos depois,
foi reeleito com folga.
Depois de 2010, Brandy
foi se afastando da área de pesquisas e passou a concentrar seu trabalho nas
áreas de estratégia de comunicação e marketing político.
Em 2014, com ótimos
índices de aprovação, Campos renunciou para se candidatar à Presidência da
República. Brandy foi o coordenador da comunicação da campanha até a trágica
morte do candidato, em um desastre aéreo, em agosto daquele ano.
Após a morte de Campos, o
marqueteiro argentino passou a colaborar mais com Casagrande, a quem conheceu
nos círculos do PSB.
Logo após a vitória
eleitoral no 2º turno, contra Carlos Manato (então no PL), em 2022, Brandy me
respondeu quais foram, em sua avaliação, as chaves para o bom resultado. Ele preferiu
exaltar a qualidade do seu candidato.
“Sem dúvida o grande
diferencial que definiu foi a qualidade do candidato, tanto pela capacidade de
gestão como de articulação política. Foi essa qualidade que permitiu enfrentar
as ‘condições meteorológicas adversas’ da força do bolsonarismo no estado e o
que levou ao resultado de ser o único governador da base de Lula que ganhou no
Sul e Sudeste do país.”
Na ocasião, Brandy
reconheceu que a campanha esperava um triunfo no 1º turno e foi surpreendida
pela chegada de Manato ao 2º turno, não por terem subestimado o adversário ou a
força do bolsonarismo, mas porque, até “o voto descer na urna”, as pesquisas
internas e publicadas na imprensa vinham indicando uma influência menor da disputa
nacional na tomada de decisão do eleitor do Espírito Santo.
“Podem ter existido
erros. Mais táticos que estratégicos. Campanha normalmente é assim: ganha quem
erra menos. Um deles pode ter sido não entrar respondendo aos ataques dos
adversários no primeiro turno. Mas, como nenhuma pesquisa mostrava um cenário
de a eleição ir para o segundo turno, também era difícil tomar a decisão de
revidar ataques e ‘esquentar’ a eleição.”
Foi exatamente o que
fizeram dali em diante. Já nos primeiros dias do 2º turno, houve uma “virada de
chave”. A campanha prontamente percebeu que era preciso apresentar ao eleitor a
vida pública pregressa de Manato, pois grande parte na verdade desconhecia o
adversário e sua história – incluindo o fato de ele ter sido membro associado
da Scuderie Le Cocq (com direito a carteirinha de sócio) e suas ligações com a
greve da PMES em fevereiro de 2017.
Brandy faz questão de
dividir os créditos com seu parceiro de trabalho, Victor Carvalho, que também
esteve no time de Casagrande nas campanhas de 2018 e 2022. Para se ter
uma ideia da importância do jornalista pernambucano, ele foi o único assessor
que ficou no estúdio com o então governador no debate final da TV Gazeta em
2022 (evento também decisivo no resultado eleitoral dias depois).
“Vencemos uma eleição das mais complexas no Espírito Santo,
derrotando um adversário bolsonarista, em um estado onde o ex-presidente ganhou
com folga”, avaliou Carvalho, à época.
No Espírito Santo, Bolsonaro derrotou Lula com 58% dos votos
válidos no 2º turno. No mesmo dia, para governador, Manato não chegou a 47%.
“Conseguimos segurar a onda conservadora, apesar de sua força”, disse, então, o jornalista pernambucano.
Em 2024, os dois fizeram juntos a campanha de Adriane Lopes (PP), eleita prefeita de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul.
Premiação
Pelo trabalho na campanha de Casagrande em 2022, Brandy e Carvalho foram
laureados em 2023, em Las Vegas, em uma das concorridas
categorias do tradicionalíssimo Reed Awards, uma das mais importantes
premiações da indústria da comunicação política e eleitoral dos Estados Unidos
(e do mundo).
O prêmio pode ser considerado o Oscar do marketing
eleitoral norte-americano.
O argentino e o pernambucano venceram na categoria Toughest
Latin American TV Ad, que pode ser traduzida como a propaganda de
TV mais “dura” na América Latina, no sentido de ir para o ataque contra o
adversário eleitoral.
A peça em questão, que rendeu a indicação e o prêmio à dupla,
chama-se “Greve”. Foi a inserção veiculada na reta final do 2º turno, associando
Manato à greve da PMES em fevereiro de 2017, evento até hoje traumático para o
povo capixaba.
Os dois também foram indicados na categoria Best
International Campaign (Sub-National) – Political – em livre
tradução, melhor campanha política internacional (subnacional, ou regional).
Mas não levaram essa.
Após o inesperado revés que foi o avanço de Manato ao 2º
turno, a campanha precisou se reinventar, emergencialmente, e acabou se
tornando um case no Brasil, por ter alcançado um feito único:
Das 14 unidades federadas em que o então presidente Jair
Bolsonaro (PL) derrotou Lula (PT) na disputa presidencial (entre as quais o
Espírito Santo), Casagrande foi o único governador eleito por um partido de
esquerda, com perfil declaradamente progressista, apoiador declarado de Lula e
com o PT em sua coligação. Ninguém mais conseguiu isso.
Dito de outro modo: foi o único candidato a governador do
campo progressista eleito em um reduto bolsonarista. E derrotando o candidato
de Bolsonaro.
Sem renegar suas origens nem esconder o apoio de petistas e
de outros aliados de esquerda (muitos deles exibidos em destaque em sua
propaganda eleitoral), Casagrande ao mesmo tempo incorporou o voto “Casanaro” e
pôs em primeiro plano aliados declaradamente bolsonaristas e outros sabidamente
de direita, como seu parceiro de chapa, o agora governador Ricardo Ferraço (então
no PSDB, agora no MDB).
Foi um mix improvável que demandou um
equilíbrio delicado e que de algum modo deu certo.
No dia 30 de outubro de 2022,
Casagrande derrotou Manato com pouco mais de 53% dos votos válidos e uma frente
relativamente confortável de quase 170 mil votos.
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