O Espírito Santo tem bons motivos para valorizar os investimentos que chegam ao Estado. Eles ampliam a capacidade produtiva, movimentam a construção, geram empregos e reforçam a arrecadação. Mas, se o objetivo é um desenvolvimento regionalmente equilibrado, a pergunta não pode ser apenas onde a empresa se instalará. É preciso perguntar o que ficará naquele território depois que o investimento for realizado.
Os números ajudam a dimensionar o desafio. No levantamento do Instituto Jones dos Santos Neves para o período de 2019 a 2024, a microrregião Metropolitana concentrou 41,6% do valor dos investimentos anunciados no Espírito Santo e 43,1% dos projetos. Não se trata de condenar essa concentração. A Grande Vitória reúne infraestrutura, serviços especializados, universidades, mercado consumidor, portos e conexões logísticas que explicam sua força. O problema começa quando o interior é visto apenas como fornecedor de matérias-primas, mão de obra ou espaço disponível para empreendimentos isolados.
Interiorizar não significa tentar levar a mesma economia da Região Metropolitana para todos os municípios. Cada território precisa construir uma especialização que aproveite seus ativos e, ao mesmo tempo, aumente sua capacidade de gerar valor. No Norte e na região do Rio Doce, por exemplo, a expansão industrial, florestal, agroindustrial e logística pode formar cadeias locais de fornecedores e serviços. No Noroeste, a agropecuária precisa ganhar processamento, tecnologia, marca e acesso a mercados. No Caparaó e na Região Serrana, cafés especiais, turismo, gastronomia e pequenas agroindústrias podem transformar identidade territorial em renda recorrente. No Sul, as rochas ornamentais, a indústria, o turismo e os serviços podem produzir encadeamentos ainda mais densos.
O ponto central é que uma fábrica, um armazém ou uma obra de infraestrutura não constituem, por si só, uma estratégia de desenvolvimento. O impacto duradouro aparece quando o investimento cria demanda para empresas locais, amplia a qualificação profissional, atrai novos serviços, estimula inovação e reduz o custo de empreender. Sem esse ambiente, o município recebe o ativo, mas boa parte do valor, das decisões e das oportunidades permanece em outro lugar.
Isso exige uma política de interiorização menos baseada em anúncios e mais orientada por ecossistemas econômicos. Crédito de longo prazo precisa chegar à pequena e média empresa que pode se tornar fornecedora. Instituições de ensino, Sistema S, universidades, cooperativas, associações empresariais e prefeituras precisam atuar de forma coordenada para identificar gargalos e formar as competências que cada cadeia produtiva exige. Estradas, conectividade digital, energia confiável, saneamento e licenciamento eficiente não são itens acessórios. São as condições que permitem a uma empresa do interior competir em qualidade, prazo e custo.
O Estado tem instrumentos para reduzir desigualdades territoriais, mas eles precisam ser calibrados. A inclusão de 31 municípios do Norte capixaba na área de atuação da Sudene oferece vantagem relevante, porém não resolve os desafios das regiões que ficaram fora desse perímetro. O desenvolvimento regional não pode depender exclusivamente de incentivos ou de uma disputa fiscal entre municípios. É necessário combinar financiamento, assistência técnica, infraestrutura, qualificação e governança regional.
Há um custo silencioso na concentração excessiva. Quando oportunidades de renda, serviços especializados e decisões empresariais se concentram em poucos centros, cidades menores perdem população qualificada, consumo e dinamismo. A interiorização bem-sucedida não busca impedir a circulação de pessoas, mas permitir que permanecer seja uma escolha economicamente viável para quem vive no interior.
Também é preciso mudar a forma de avaliar resultados. Não basta contabilizar o volume anunciado de recursos. Uma política de interiorização deveria acompanhar a criação de empregos formais de melhor remuneração, o nascimento e a sobrevivência de fornecedores locais, a diversificação da base produtiva, o aumento do valor agregado das exportações e a capacidade de jovens encontrarem oportunidades sem precisar deixar sua região.
O interior não será fortalecido por oposição à Grande Vitória. A metrópole continuará sendo uma plataforma essencial de serviços, logística e conexão com mercados externos. O caminho é fazer com que essa plataforma se conecte melhor aos polos do interior, em uma economia na qual produção, conhecimento, crédito e oportunidades circulem em mais direções.
O Espírito Santo não precisa distribuir investimentos de maneira artificial. Precisa criar condições para que mais municípios transformem seus ativos em negócios sustentáveis, empregos qualificados e qualidade de vida. Interiorizar o desenvolvimento é fazer com que o crescimento deixe de ser um evento localizado e passe a ser uma capacidade compartilhada.
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