Sangramento ao evacuar, dor, coceira ou nódulos na região anal são sintomas frequentes de uma condição bastante comum: a doença hemorroidária, que afeta principalmente idosos, gestantes e pessoas com constipação intestinal. De acordo com um estudo recente, a prevalência da condição ao longo da vida é de 27,19%, indicando que aproximadamente uma em cada quatro pessoas apresentará a doença em algum momento da vida. Considerando sua elevada frequência e seus sintomas, o problema pode comprometer significativamente a qualidade de vida.
O modo de vida contemporâneo, marcado pelo consumo crescente de alimentos ultraprocessados, dietas pobres em fibras, sedentarismo e longos períodos sentados, pode estar associado ao avanço da doença hemorroidária no Brasil. Dados do Sistema de Informações Hospitalares do Ministério da Saúde (SIH/SUS) revelam que, na última década, mais de 290 mil cirurgias para tratamento de hemorroidas foram realizadas na rede pública de saúde.
O coloproctologista Olival de Oliveira Jr., da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, alerta que esse número expressivo reflete não apenas a busca por tratamento em estágios avançados, mas também o impacto direto dos hábitos modernos sobre a saúde intestinal da população. "A rotina atual da população combina o alto consumo de ultraprocessados, baixo teor de fibras na dieta, pouca ingestão de água, sedentarismo e a distração pelas telas no banheiro. Essa combinação prejudica o trânsito intestinal e sobrecarrega as veias da região anal."
Hemorroida é a dilatação das veias na região do ânus e reto, que causa desconforto e pode ser interna ou externa. São veias que, em condições normais, dilatam e retraem durante a defecação, mas podem inflamar ou dilatar excessivamente, causando sintomas como dor, coceira e sangramento.
"Os principais sintomas das hemorroidas incluem ardência, coceira, sangramento (nas fezes, no papel higiênico ou na roupa íntima), desconforto, inchaço e dor anal", diz a coloproctologista Mônica Vieira Pacheco.
De acordo com a sua localização, as hemorroidas podem ser classificadas em externas e internas. As primeiras são revestidas por pele e localizam-se na borda do ânus, podendo causar sintomas que incluem coceira, dor e dificuldade de higiene. São mais facilmente identificáveis, pois podem ser detectadas por meio de uma visualização direta da região anal. "Já as internas são classificadas de acordo com a extrusão ou não, durante o esforço evacuatório e à anuscopia, ou seja, o exame interno do ânus", diz a médica.
A doença pode causar dor ao evacuar, principalmente se tiver trombosada ou edemaciada. Na maioria dos casos, causa ardência e desconforto. Quando estiver com hemorroida, a pessoa deve evitar condimentos e pimenta, papel higiênico, não fazer esforço evacuatório e não ficar muito tempo sentado no vaso sanitário. "Recomenda-se, ainda, evitar o alto consumo de alimentos constipantes como pães, biscoito, bolo e farinha, por exemplo", diz Mônica Vieira Pacheco.
Mitos influenciam na busca por tratamento
A doença hemorroidária é caracterizada pelo inchaço e dilatação das veias na região anal, frequentemente associada ao esforço evacuatório decorrente da constipação intestinal. E um hábito contemporâneo tem chamado a atenção dos especialistas: permanecer por tempo prolongado sentado no vaso sanitário utilizando o celular. A postura, associada ao tempo excessivo, aumenta a pressão vascular local, atuando como fator agravante.
A desinformação e os tabus culturais também contribuem para afastar a população dos consultórios, podendo agravar a condição. O médico reforça que é falso que pimenta e café causam hemorroidas. "Pimentas e condimentos podem irritar a mucosa de quem já apresenta lesões ou inflamação ativa, mas não originam a doença. O principal fator causal é a constipação e o esforço evacuatório prolongado", diz Olival de Oliveira Jr.
Sentar no chão quente ou em superfícies aquecidas também não causa hemorroidas. A temperatura da superfície não provoca o surgimento de hemorroidas. O risco está associado a permanecer sentado na mesma posição por períodos muito longos, independentemente da temperatura.
Vale ressaltar que ingredientes caseiros sem orientação médica não possuem eficácia comprovada e podem provocar reações alérgicas ou outras complicações. O banho de assento recomendado deve ser feito apenas com água morna para aliviar o desconforto.
A prática de sexo anal também não causa hemorroidas. "A prática do sexo anal não causa a doença hemorroidária, que possui etiologia vascular e multifatorial (como predisposição genética, gestação e constipação). No entanto, durante fases de crise inflamatória ativa, a prática deve ser evitada para não causar atrito ou agravamento dos sintomas locais", diz o médico.
É falso que hemorroidas podem virar câncer. Trata-se de uma alteração vascular benigna que não evolui para câncer. No entanto, é importante procurar avaliação do especialista, pois algumas vezes o sangramento anal pode estar relacionado a doenças como câncer colorretal, mesmo com a presença de hemorroidas.
Tratamento
A coloproctologista explica que o tratamento começa com alteração dos hábitos higiênicos dietéticos. "O indivíduo precisa ingerir muita água, folhas, frutas e fibras, fazer atividade física, além de evitar alimentos constipantes e condimentados. Deve-se ainda evitar o uso de papel higiênico e não ficar muito tempo sentado no vaso".
Também é indicado pomadas com anti-inflamatório e anestésicos tópicos e algumas medicações anti-inflamatórias e que diminuem o edema. Nos casos refratários, indica-se cirurgia, que pode ser a hemorroidectomia clássica ou utilizando técnicas menos invasivas como laser de diodo, laser de CO2 e hemorroidopexia. "Indicamos a cirurgia quando o tratamento clínico não é efetivo, quando a hemorroida já está extremamente para fora do ânus, o que significa que os sintomas estão muito intensos e podem estar afetando significativamente a qualidade de vida do paciente", finaliza a médica.