De uma infância cheia de criatividade em Vila Velha aos festivais internacionais de cinema, a trajetória da atriz capixaba Raiza Noah é marcada por coragem, reinvenção e paixão pela arte. Hoje, ela vive um dos momentos mais importantes da carreira ao integrar o elenco do curta-metragem “BELA LX-404”, produção que acumula prêmios no exterior, disputa o Prêmio Grande Otelo e mobiliza o público para votação online.
Nascida em Vitória, mas criada em Vila Velha, Raiza conta que o interesse pela atuação surgiu ainda na infância, de forma espontânea. “Eu inventava teatrinhos, danças, shows… qualquer desculpa virava uma apresentação. Fazer trabalho só com cartolina era um tédio, eu queria era conquistar a atenção da plateia de alguma forma original”, relembra.
Foi ainda na escola, ao apresentar sozinha um trabalho para a turma, que percebeu, mesmo sem saber nomear, que aquele era o seu lugar. A infância, segundo ela, foi marcada por muita imaginação, e também solidão.
Fui uma criança muito solitária e extremamente imaginativa. Morava em uma rua isolada, passava muito tempo sozinha e precisava criar formas de me entreter
Nesse período, desenvolveu o hábito de ler e assistir filmes, o que ajudou a construir sua base artística. Os primeiros passos concretos para as artes vieram na adolescência, com o balé clássico, aos 13 anos.
Os desafios de sair do ES e buscar espaço na arte
Aos 17 anos, decidiu sair de casa e ir morar no Rio de Janeiro para estudar artes cênicas e seguir o sonho de viver da arte. “O fato de sair de casa já foi um desafio enorme, mas o mais difícil foi lidar com uma autoestima constantemente abalada. Eu me sentia ‘atrasada’ em relação a quem cresceu em grandes polos culturais”, afirma.
Acervo pessoal
A atriz também contou que, naquele momento, ainda não se reconhecia como mulher negra, o que dificultava compreender e nomear situações de violência. Essa vivência impacta diretamente a forma como Raiza se posiciona no mercado. Para ela, ocupar espaços no audiovisual é também um ato de representatividade.
“É uma honra e uma responsabilidade. A cultura capixaba é extremamente potente e ainda muito subestimada. Sempre que consumo arte feita aqui, penso: ‘as pessoas não fazem ideia do que estão perdendo’”, diz.
O encontro com Léa Garcia
No curta “BELA LX-404”, dirigido por Luiza Botelho, a atriz mostra versatilidade ao interpretar diferentes personagens. “Foi um processo muito espontâneo. A gente foi descobrindo essas possibilidades juntas. Tenho uma relação muito forte com a minha voz e sempre gostei de explorar timbres e entonações diferentes, então foi natural expandir isso para outras personagens dentro do filme”, explica.
A produção é estrelada por Léa Garcia em uma de suas últimas atuações, e contracenar com a veterana foi, segundo Raiza, transformador. “Foi um divisor de águas. Eu esperava uma postura mais distante, mas encontrei o oposto: presença, generosidade, disciplina. Ela chegava cedo, com o texto na ponta da língua, totalmente disponível. Me ensinou, na prática, que os grandes mestres continuam sendo eternos aprendizes”, relata.
Com sete prêmios internacionais no currículo, incluindo reconhecimento em festivais como o Pan African Film Festival, o curta agora depende do engajamento do público para avançar no Prêmio Grande Otelo. Para Raiza, esse movimento coletivo é essencial. “O cinema independente precisa desse apoio. Cada visualização, cada voto, fortalece não só o nosso filme, mas toda uma cadeia que acredita em contar histórias diferentes”, afirma.
Entre o digital e o audiovisual: diferentes formas de atuação
Além do audiovisual, Raiza também encontrou no digital uma forma de sustentar a carreira. “Começou por necessidade. Eu precisava construir uma renda mais previsível e enxerguei o digital como uma possibilidade real. Entrei com estratégia, com muita dedicação, e funcionou”, conta.
Ainda assim, ela reconhece as diferenças entre os dois universos. “No audiovisual, eu me torno o personagem que alguém sonhou. No digital, eu assino tudo do início ao fim”, diz.
A comédia, hoje uma de suas marcas, também passou por um processo de amadurecimento.
Sempre fez parte de mim, mas eu escondia. Era algo reservado para poucos. Só depois, mais segura de quem eu era, comecei a deixar esse humor aparecer. Hoje, é uma das minhas maiores ferramentas
Com passagens pela TV em produções como “Todas as Flores” e “Haja Coração”, além de trabalhos autorais no teatro e no stand-up, Raiza agora mira novos desafios.
“Quero consolidar minha carreira no audiovisual com personagens mais complexos. Sigo investindo no trabalho autoral e quero construir uma trajetória como multiartista, com autonomia criativa e controle sobre a minha própria narrativa”, afirma.
Mais do que uma trajetória em ascensão, a história de Raiza Noah é também sobre pertencimento e construção. Entre personagens, palcos e telas, ela segue transformando vivências em arte e ampliando as possibilidades para quem vem depois.